segunda-feira, 20 de maio de 2013

ENTRE A AUTORIDADE E A AUTORIA - A CRIAÇÃO DA FIGURA DO EDUCAUTOR

POR MARCELO CUNHA BUENO
Está cada vez mais claro: toda vez que um educador deixa de estudar, deixa de planejar as suas ações, torna-se um ditador, um pastor, um pregador. Impõe, limita, imita, condiciona, grita sua falta.

Toda autoridade, no sentido da imposição, é demonstração de falta de cuidado, de afeto, de uma insegurança e, no caso da escola, de estudo. Descuido com o outro. Sim, porque estudar para os estudantes, planejar uma aula, é demonstração de afeto, de um cuidado. Quando o educador se vê (?) perdido diante de seu grupo, sem saber o que fazer, acaba impondo o silêncio, acaba impondo as formas e fôrmas de pensar. O pensar se transforma em um maquinário da razão. O silêncio se transforma na não expressão. O silêncio se transforma em grito de desespero.

Dar-se ao acaso, jogar-se ao desconhecido, não encontrar respostas, são, entre tantas outras, imagens de uma educação que se faz no presente, no acontecimento da relação. É por essa educação que deveríamos educar. Mas, vejam, é preciso reflexão. É preciso estudo para chegar a esses lugares. Porque são lugares. Porque há caminhos. Porque há disposições de ideias e saberes. Então, a ideia do se ver (?) perdido é o oposto do devir, da energia que circula entre os espaços e tempos, entre a possibilidade de conhecer e a constatação do desejo em aprender.

O estudo tem relação com a constituição de quem somos. Estudando, criamos nossa pele. Estudando, colocamo-nos ao mundo com o sentimento possível existente entre o que ensina e o que aprende. É no ato de estudar que abrimos caminhos para pensar em como chegamos a ser o que somos. O estudo nos oferece uma identidade da diferença. É o que nos faz únicos. Porque os estudos têm relação com escolhas, com afetos e disposições. Cada um estuda seguindo seus tempos, seus sentimentos, interesses, aflições.

O estudo compõe relações. Fala palavras. Manifesta culturas. Expõe angústias. Determina caminho. Sustenta-se em argumentos. O estudo nos oferece autoria.

E, quando a autoria nos estudos nos falta, quando falamos pelas palavras dos outros, das correntes e tendências, em nome de, falamos a resposta esperada, assinalamos a alternativa correta, deixamos de lado a autoria, abandonamos o pensamento que nos pertence. E, se deixamos de pensar por conta própria, não nos sobra argumentos. E uma vida sem argumentos (além de despotente) é uma vida assujeitada às formas impostas por aqueles e aquilo que, dentro das escolas, transvestem-se de apostilas e doutrinas metodológicas.

Um educador sem estudos, um executor de métodos, um educador que se esconde atrás de apostilados, de grandes correntes de educação, de rankings de notas, de diplomações acadêmicas, só encontra validade para o seu saber nas faltas dos outros, os seus estudantes. Só demonstra poder quando ele, o chefe, o capitão da sala de aula, distribui notas aos seus estudantes.

Escolas deveriam ser a geografia do estudo. Parece redundante, mas é tão difícil encontrarmos esse espírito autor dentro delas! É tão difícil vermos professores estudando para serem educadores. É tão raro vermos autoria de pensamento em sala de aula.

Para que isso aconteça, a escola deveria começar a se perguntar sobre o que pensa, sente, entende sobre aquilo que circula em seus corredores. Os educadores, docentes de sala, coordenadores e diretores devem elaborar perguntas que lhes levem à reflexão - inquietante - do ponto em que estão. Dá trabalho, mas é do que se trata ser educador.

Como os educadores se relacionam com o currículo da escola? De que forma e que espaços têm para mudar, transformar conceitos? Há lugares para uma reflexão coletiva sobre intervenções, sobre ideias daquilo que se pensa e faz na escola? O que a escola oferece como repertório literário de estudo para seus professores? Qual é o papel da coordenação pedagógica na formação e nos estudos dos educadores da instituição? Os educadores escrevem? Que espaço há para pesquisas e estudos ligados às artes plásticas, musicais, audiovisuais nos lugares marcados do registro escrito? Quando e de que forma os educadores podem comunicar o que estudam, o que refletem sobre educação? Educar é, em sua escola, um ato autoral?

Pensar - mais - sobre o pensar. Pensar mais sobre o que se pensa... para transformar o que se faz.

Esse é o espírito do Educautor!

Nenhum comentário:

Postar um comentário