segunda-feira, 20 de maio de 2013

AS CONEXÕES ENTRE A MENTE, O CÉREBRO E A EDUCAÇÃO: POR UM ENSINO E APRENDIZAGEM EM REDE


POR MARCELO CUNHA BUENO
Onde começa a escrita? Começa na ideia ou no ato motor de escrever?

E mais... o que nos mobiliza a escrever? A vontade de comunicar ou uma vontade de elaborar, sistematizar a ideia?

Será que essas reflexões acontecem na escola? Sim, porque, se acontecerem, toda função didática sofrerá transformações profundas!

O que queremos de uma criança quando lhe fazemos identificar em uma história, por exemplo, uma informação marcada pela palavra? De que cor era a casa em que João entrou? E o que mobilizamos nas crianças quando, por exemplo, lhes perguntamos uma opinião para um fato ocorrido? Poderíamos, ainda, questionar o que mobilizamos quando a fazemos refletir sobre as suas ações no meio, ou quando a incentivamos a transformar o meio segundo as suas percepções e avaliações. 

Um texto é composto por perguntas. É dessa forma que nos relacionamos com eles para melhor entendê-los. Conseguimos compreender conceitos se soubermos questioná-los. Perguntar, como costumo dizer, é a melhor forma de ampliarmos o que estamos a conhecer, a aprender. Quanto maiores e mais amplas forem as nossas perguntas, mais aprenderemos sobre o que circula pelo mundo.

O cérebro, que será chamado nesse texto de mente (já que não se trata do corpo material, mas de suas conexões, pensamentos, energia, neurônios e afins; já que se trata de algo em movimento, dinâmico, e não estático), se não questionado, se não perguntado, economizará energia, simplificará caminhos para a compreensão. Justo, já que seu trabalho desprende de uma quantidade de energia enorme se a compararmos com outros órgãos, músculos do corpo humano.

Nesse sentido, escola e família são responsáveis por “exercitar” a mente das crianças. Desde muito cedo! O próprio contato corporal, material e o contato criativo, imaterial, são essenciais para ampliarmos as conexões da nossa mente. Aquela imagem estática que acende luzes do raio x do cérebro (vemos cores azuis para emoção, vermelhas para razão, como se fossem dessas cores e existissem classificações dessa natureza determinate) é uma falsa representação do que acontece realmente. Sim, “as luzes se acendem”, mas é uma sinfonia de conexões, um movimento de descargas energéticas, de pensamentos em ação que mobilizamos para dar sentido, compreender o que se passa dentro e fora de nós. Quanto mais perguntas fizermos a uma criança, quanto mais elementos oferecermos para ela entender os temas mundanos, mais conexões fará.

Por isso as perguntas do começo do texto. O ato de escrever está, em mim, diretamente ligado às minhas vontades, aos livros que li, aos elogios e críticas que recebi, a minha profissão. Emoção, razão, habilidades ou não na linguagem escrita, tudo mobilizado no ato de escrever. E a prática da escrita me faz escrever mais e melhor. Sim, porque, ao percorrer caminhos de conexões, a mente cria uma espécie de memória, “facilitando” o meu trabalho a cada vez que o pratico.

Por isso, ao vermos uma criança andando, meio titubeante, nos perguntamos se já fomos assim. Hoje, com as habilidades corporais, com a prática do caminhar, quase nem pensamos nos passos que damos. Treino, prática, tempo, repetição.

Mas a mente precisa de desafios, para além da repetição, para além do uso cotidiano das ações. A mente precisa viver pontos de vista. Precisa caminhar de dentro para fora e de fora para dentro. Explico-me, já estabelecendo relações com o que pode acontecer em sala de aula se levarmos em conta a nossa rede relacional do pensamento. Escolhi chamar essas reflexões e práticas de “Conexões entre mente, cérebro e educação – ensino e aprendizagem em rede”.

Entender o que significa árvore, com suas definições biológicas, descritas em uma enciclopédia, por exemplo, é muito importante para a mente. Essa compreensão está ligada à ideia de localizar no texto uma determinada informação. Tem relação com a constatação dos fatos. A escola técnica, apostilada, trabalha bastante nessa esfera de pensamento, por assim dizer.

Conseguir entender o que significa uma árvore de jacarandá, por exemplo, está num outro campo da mente. Um campo que relaciona dois elementos estáticos, árvore e jacarandá, e os une, possibilitando-nos reconhecê-la entre outras espécies, diferenciando-as com suas especificidades. É o que nos propõem, por exemplo, os conhecimentos que circulam em uma sala de aula quando queremos que as crianças identifiquem, por diferenciação, por uma relação binária, determinados conteúdos. E está presente tanto nas escolas ditas tradicionais, como nas escolas de base cognitivista, humanista (as correntes pedagógicas ou relações curriculares não são essenciais aqui, apesar de me referir a elas, nomeando-as).

Abrir caminhos para relacionar outros elementos a partir do que se discute, por exemplo, a importância de preservar as árvores de jacarandá em determinado lugar, pressupõe outra mobilização. Uma mobilização que dá conta de relacionar informações, de costurar diferentes disposições de entendimentos, de manter crítica frente a determinada situação. É o que trabalham as escolas que têm a pedagogia de projetos como bandeira. Um tema que se conecta a diferentes áreas do conhecimento. Uma culinária sobre um país, um trabalho de pintura sobre um artista e assim por diante.

Agora, é muito raro encontrarmos a esfera do social, do compartilhamento, da transformação do meio. Uma relação que supera o trabalho social como: conhecer uma “realidade” vivenciando-a de forma “lúdica”, trocar cartas com crianças de diferentes condições econômicas, culturais e sociais. Essa relação de pensamento tem conexão com compartilhar, com reconhecer, de forma crítica, necessidades específicas, com a capacidade de avaliar, criar instrumentos procedimentais, com comprometimento coletivo, com compreensão das implicações humanas que as nossas ações podem gerar. É o que tem circulado por instituições de ensino com o apelo do empreendedorismo sustentável, consciente socialmente. Plantar uma árvore de jacarandá, para usar um exemplo que siga o raciocínio anterior, é uma ação do pensamento nessa esfera. Plantar, não no gesto de jogar semente na terra apenas, mas de conhecer todo o ciclo do gesto de plantar, estabelecendo relações entre terra, árvore, adubo, plantio, pá, água, luz, ecologia, um balanço nos galhos da árvore... e a poesia de Manoel de Barros.

Veja, essas formas de trabalho não são isoladas e nem pertencem a uma determinada sequência evolutiva. Quando vemos coisas, quando escutamos, quando lemos, sentimos, estamos mobilizados em todas essas frentes. O que acontece, como disse antes, é que somos “treinados” pelo meio, ao longo de toda a nossa vida, a escolher determinados caminhos. Caminhos que facilitam a nossa compreensão, que economizam energia. É aquela memória da mente que é executada sempre que repetimos a mesma conexão. Não é certo que repetimos os mesmos modelos de relacionamento, repetimos rituais de estudo, repetimos as mesmas aulas sobre certos conteúdos? Não é certo que buscamos sempre uma metodologia que facilite o ensino e aprendizagem dos nossos alunos? Sim, esse é um caminho que se torna mais fácil com a repetição (tradição?), mas merece ser mudado, pelo bem da nossa mente. E o mudamos quando o questionamos, provocando diferentes acessos. Como posso, em minha aula de geografia, colocar elementos da música? Como, em minhas aulas de ciências, posso relacionar seus conteúdos com elementos históricos? E por que dispor sempre dos mesmos questionamentos para disparar um conteúdo? Por que não experimentamos entrar pelas janelas, ao invés das portas, quando se trata dos conteúdos-que-precisam-ser-ensinados para as crianças?

Há tempos, aqui na Estilo de Aprender, temos experimentado uma relação com o-que-precisa-ser-ensinado bem diferente do que vivemos e do que se vive em muitos espaços de educação. Experimentamos formas de conexões entre os conteúdos a partir do questionamento dos mesmos. Digo que estamos a praticar aquela última relação que mencionei, que pressupõe uma ação compartilhada, de transformação do que está posto no meio. Trabalhamos na esfera da criação conceitual. Uma criação que muda o currículo, a forma de pensar dos docentes, famílias e estudantes, que muda as concepções de infância, ensino etc.; que muda a ideia do que se está a avaliar. E mudam-se os espaços, mudam-se os livros, muda-se o se expor à escola... transforma-se escola.

E... Onde começa a escrita? Começa na ideia ou no ato motor de escrever?

E mais... o que nos mobiliza a escrever? A vontade de comunicar ou uma vontade de elaborar, sistematizar a ideia?

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