quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O CAMINHO PARA A CONQUISTA DA ORALIDADE


POR MARCELO CUNHA BUENO

Um corpo sensível! Um corpo que sente cada pedaço do mundo! Um corpo que procura organizar as sensações intensas e constantes em sua relação com o fora. Sons, aromas, calor, frio, dor. Tudo ao mesmo tempo. Nesse instante.

A repetição dessas sensações, dessas relações, da dança entre o dentro e o fora, acaba por ajudar a criança, o bebê, a construir sua memória, seu repertório. O tempo é instrumento que ajuda a criança a organizar suas sensações. A determinar o que é da esfera dos sentidos.

Seus movimentos deixam de ter o ar caótico e se equilibram. Suas mãos se tornam a continuação de seus olhos. Esses desejam algo e, como num passe de mágica, estendem-se até os dedos, realizando a exploração do objeto desejado.

Seu corpo é a sua fala. Seu corpo é toda a síntese daquilo que pensa, elabora e questiona sobre o mundo que começou a habitar. O choro. Expressão sonora de sensações ainda sem controle, ainda sem palavras. O choro, palavra universal, que engloba, acolhe e convida sensações, sentimentos e incômodos para conviverem juntos em um movimento intenso de inspirações e expirações.

Olhos, braços e mãos. Agora, pernas e pés compõem sua comunicação. Caminha para chegar onde quer. Anda para dizer o que deseja, onde quer chegar.

De repente, um som diferente. De repente, uma escuta para um aglomerado de sons com intenções dos adultos. O que eles dizem?

Criança sabe ler! Sabe ler desde cedo. Lê as intenções daquilo que ainda não domina! O que dizer de uma criança que compreende o que seu pai, sua mãe acabam de lhe pedir mesmo sem ter a linguagem oral desenvolvida? Letrada de intenções. Assim é a criança nesse momento.

E, de tanto ler “intensons”, começam a imitar os sons. Começam a testar sua oralidade num jogo maxilar. E esse jogo desperta interesse dos adultos que a cercam.

É como se renovasse seu estoque de fofuras e usasse mais esse recurso para chamar atenção do mundo. E chamar atenção do mundo é se comunicar. Querer dizer algo! Ser alguém no mundo!

Entende que tem coisas que saem da boca. Quem não viu ou experimentou ser explorado pelo dedo de uma criança, tentando tirar da boca aquela coisa que chamamos de voz, palavra, frase? A criança procura na boca do adulto as palavras que ainda não tem!

Descobre que consegue falar a última sílaba das palavras. Acompanha as músicas dessa forma. Lembra-se de palavras simples, que marcam algum ritual do dia, como beber água, ir à escola, mãe no trabalho, comida, sono. Fala uma palavra inteira. Junta duas. Forma frases. E, quando menos esperamos, cria histórias. Conta suas histórias. Faz memória com sua oralidade.

Assim, ou mais ou menos assim, caminha a criança desde muito cedo, nos primeiros anos de vida até a conquista do universo da comunicação oral. Para que esse caminho seja repleto de sentido e que pais e mães possam aproveitá-lo e ajudar no desenvolvimento da linguagem oral, ofereço-lhes algumas dicas importantes.

Converse sempre!

Conversar com a criança é encorajá-la a pensar! Pensar sobre o que vive! É sinal de afeto, pois conversamos com quem queremos compartilhar histórias. A conversa é um sinal de afeto social. É demonstração de importância para a criança. Converse sobre o dia, sobre histórias passadas entre vocês. Sobre acontecimentos recentes. Sobre os planos para o final de semana. Sobre o tempo. Sobre a escola. Sobre os amigos.

Pergunte!

Perguntar vale mais do que responder. A escola passa todo o seu tempo pensando em ensinar respostas. Assim crescemos, achando que o aprendizado está nas respostas. Quem pergunta é que domina o tema. É quem é capaz de sistematizar o que sabe, relacionar com outros conhecimentos, pensar no remetente da conversação e expor, com palavras adequadas, aquilo que deseja saber. São muitos movimentos inteligentes que envolvem o universo do questionamento. Pergunte sobre gostos. Pergunte sobre opiniões. Pergunte para fazer pensar, refletir. Para se colocar no lugar dos demais. Para colocar ideias e se fazer presente. Pergunte para que a criança ganhe a sua própria voz.

Não “infantilize”.

Temos a obrigação, a função, de ajudar a criança a falar corretamente. Desafiar a criança a encontrar formas adequadas de se comunicar com o mundo. A fala é social e as palavras que compõem a linguagem oral devem ser faladas para que exista entendimento. Água não é dada. Cachorro não é auau, gato não é miau, comida não é papá. Esses recursos, além de serem apreciados pelas famílias, facilitam a comunicação entre os envolvidos na cena, mas não ajudam a criança a construir socialmente a sua noção de comunicação.

Falar corretamente.

Atenção à fala. À gramática. Às gírias. Atenção aos xingamentos. Às intenções. A fala é um sinal de respeito. De atenção com o outro. Com a cultura. E deve ser cuidada por aqueles que falam.

Ler sempre!

Ler é a melhor forma de compor uma fala, uma oralidade rica, repleta de conexões. A melhor forma de nos aproximarmos da intensidade da comunicação que se vivia nos primeiros meses de vida. A leitura é capaz de atribuir à fala sua potência vital! É capaz de atribuir poesia ao que se fala, ao que se diz. Ler é a costura entre o que se fala, o que se escuta e o que se sente!

Entre na escola!

A escola é o espaço da comunicação social. Lá na escola, todos se comunicam. E, para conseguir ser e estar nesse meio, preciso falar. Preciso dizer o que penso, sinto, desejo. A criança, na escola, acaba fazendo a ponte entre uma comunicação mais familiar, mais individual, e uma comunicação social, mais coletiva.

E o caminho segue... do corpo para a fala, para o corpo na fala, que é a escrita. E isso já é uma outra fala.