quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ENTRE O QUE FALA E O QUE ESCUTA

                                                                                                  POR MARCELO CUNHA BUENO
 
           A questão está posta: estudantes não escutam seus professores.

Não escutam a matéria dada. Não escutam as regras colocadas. Não escutam os esforços das escolas em fazer com que gostem de estudar. Não escutam mais as suas famílias. Não escutam, pois só pensam em seus tablets, smarts e afins. Não escutam porque foram condenados a pertencerem a uma geração que sempre será pior do que a geração passada.

Mas o que acontece? Ficaram surdos?

As escolas e seus professores se esforçam em tentar significar suas falas, chamando a atenção dessas crianças e jovens surdas à voz dos adultos. Gritam, fazem vivências, tentam envolver famílias, realizam diversas estratégias tentando significar suas responsabilidades. Eles continuam surdos à escola. Então, pensamos: estarão eles surdos de verdade ou somos nós que desaprendemos a falar a sua língua?

Sim, porque sabemos que a escola, por mais “moderninha” que se pretenda, ainda pratica e comunica linguagens antiquadas, por assim dizer. Continua avaliando mais faltas do que conquistas, continua classificando e ranqueando as aprendizagens, continua apostilando saberes e conhecimentos de forma limitadora e empobrecedora, continua exigindo silêncio, continua pedagogizando relações, continua atribuindo diagnósticos aos que não se encaixam, continua pensando o currículo de forma sequenciada, continua negando que seu papel é fazer com que meninos e meninas a superem (entendam que os saberes não estão apenas lá).

A escola, que sempre disse que seus muros deveriam ser derrubados, não encontrou, até os dias atuais, ferramentas para, de fato, implodi-los. Até hoje, pois não esperava que seus próprios habitantes, os estudantes, fossem essas ferramentas. E, hoje, com seus muros no chão, sente-se perdida. Encontra-se em um profundo ressentimento por não conseguir mais estabelecer comunicação com o mundo de “fora”. Ressente-se por ter seus muros derrubados por seus próprios habitantes: os estudantes.

E sua paralisia a calou, a ensurdeceu! Criou um gigantesco abismo entre aquele que fala e aquele que escuta. Entre estudantes, escola, professores e famílias.

Repensar espaços, novas geografias e composições arquitetônicas para além das quadras esportivas, laboratórios, salas de informática, salas e espaços de conhecimentos marcados.

Repensar seus currículos. Singularizar aprendizagens, didáticas, avaliações. Ampliar seus repertórios. Estender seus braços, acolhendo projetos que vão além da escola. Um currículo que converse com os assuntos que mobilizam jovens e crianças. Um currículo plástico, que convide os professores e professoras a criá-lo à medida que se relacionam com seus estudantes. Um currículo inteligente, que costure diferentes ideias, matérias, conceitos.

Repensar seus educadores. Pessoas que fizeram escolhas. Que fazem escolhas todos os dias. Pessoas-educadores, que superam a figura professoral e conquistam o espaço de professores-pesquisadores.

Repensar suas falas. Falas que comunicam, convidam para uma conversa. Falas que superam o famoso “pedagogês” e respondem, perguntam, questionam com as famílias e estudantes o que significa fazer parte de uma escola.

Entre o que fala e o que escuta, há um espaço infinito de relações, de caminhos. A escola passou todo o tempo achando que traduziria a língua de seus habitantes. Passou o tempo todo impondo sua língua a seus habitantes. Chegou a hora de escutarmos mais do que falarmos. Abrirmo-nos ao outro, as suas palavras e gestos. Entre o que fala e o que escuta, há uma imensidão de vozes! A sua, a minha, a nossa, o eco.