quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ENTREVISTA PARA O SITE "MAMATRACA"


A escolha da escola é um dos dilemas mais difíceis para os pais. É assunto que tira o sono porque traz uma imensa carga de responsabilidade sobre o que essa decisão impactará no futuro dos nossos filhos. Hoje o Mamatraca traz uma entrevista com o educador Marcelo Cunha Bueno, um dos consultores mais acessados pela mídia na área de educação infantil. Diretor da Escola Estilo de Aprender e coordenador pedagógico da Teia de Saberes – Centro de estudos em educação, ele desenvolve e ministra grupos de estudos e cursos de extensão sobre temas educacionais e filosóficos. É consultor pedagógico de vários projetos infantis para empresas, colunista da Revista Crescer e outros sites de educação. Nessa entrevista imperdível, ele tira um pouco desse peso dos ombros dos pais e garante: o fundamental é aproveitar o hoje. Confira:

Quais são os principais critérios a serem levados em consideração na hora de escolher a escola dos nossos filhos? Esta é uma escolha puramente racional?

Essa é uma escolha muito emocional. A racionalidade é importante para organizarmos as ideias antes de conhecermos as escolas. É fundamental fazer perguntas sobre o currículo da escola, sobre a formação dos professores, rotina das crianças, uso dos espaços, parcerias com as famílias. É absolutamente imprescindível que as famílias visitem a escola, conversem com a coordenação, direção. Vejam a coisa funcionando, viva! Nada melhor do que olhar nos olhos das crianças, dos professores, sentir o clima do lugar. Isso é emocional.
Para mim, o mais importante em uma escola é a sua preocupação com a formação docente. Formação dentro dos espaços escolares. Outra coisa importante é a superação daquele senso comum pedagógico que só serve para afastar as famílias da educação de seus filhos. Cada vez que a escola brada as suas linhas pedagógicas, brada os seus apostilados, ela, de certa maneira, diz: esse é a minha especialidade, não se meta!
Não deveria ser assim. Educação se faz junto. Em parceria. É lógico que educar, ensinar conteúdos, quem faz é a escola. Não se trata disso! Trata-se de unir forças, percepções para uma educação melhor.
Parceria, formação e espaço são bons critérios de escolha.

O que temos observado é que as escolas têm sido cada vez mais criteriosas nas seleções dos alunos. Está havendo uma inversão de valores? Afinal, quem escolhe quem: os pais escolhem a escola ou são escolhidos?

Pois é, este é um tema bem delicado. O que acontece é que as escolas, para manterem as suas notas e classificações naquele ranqueamento de "melhores escolas do Brasil", acabam fazendo uma espécie de normatização, de homogeneização de seus alunos. Escolhem aqueles que aparentam ser os melhores, que não diminuirão as suas notas. Tentam "nivelar" o seu público. O que é o inverso daquilo que é uma das funções da escola: educar na diversidade. O que fazem é pegar as notas do Ensino Médio e tentar garantir que os seus alunos se aproximem o quanto antes delas.
Uma pena! Pois se educa para um fim. Para um teste, para algo que favorece apenas as escolas.
Esse caminho é uma vergonha! Um verdadeiro processo de exclusão, de recorte social, cultural. Presencio isso todos os anos. Vejo os estudantes de muitas escolas tendo de fazer avaliações, entrevistas e mais entrevistas. Só falta pedirem exames de sangue, DNA!
Meu conselho? Afastem-se delas e divulguem todos os processos de "seleção" que as mesmas fazem!

O que mais apavora os pais nessa fase de escolha da escola é a carga de que a sua decisão vai impactar o sucesso do seu filho no futuro. Até que ponto a escola determina o sucesso, as escolhas e, principalmente a felicidade de alguém?

Aproveitar o hoje, o presente! O crescer só é transformador se for vivido em sua máxima potência, no aqui e no agora. Educação é assim: o hoje importa. Um hoje pensado, estruturado para afirmarmos todas as multiciplidades relacionais. Relação entre conteúdos, entre pessoas, entre conceitos, entre culturas, entre diferentes representações do mundo. Quando se educa somente para o futuro, deixamos de ver o que nos passa a cada instante. Deixamos de pensar a vida nesses momentos que nos enchem de experiências. Não adianta fazer um Infantil pensando no Fundamental I. Cada um tem de ter a sua característica, sua estrutura de relação.
Muitas vezes, as famílias chegam à minha escola e demonstram preocupação com a continuidade. Com o vestibular. Matam a vida, a força do presente pensando no futuro. Sei como é isso. Penso nisso como pai. Mas afirmo que as coisas não são assim na prática escolar. Vejo que as histórias mais bem resolvidas foram as mais cuidadas. As que mais respeitaram o presente. Gosto de dizer a elas que é bom aproveitarmos esses filhos e filhas enquanto cabem num balanço, num cavalinho de pau!
A ideia de sucesso e felicidade precisa ser amplamente discutida nos tempos de hoje. Escola não garante isso. Nem uma boa faculdade.
Carinho, atenção, respeito, acompanhamento, afeto pela criança, pelo jovem é o fundamental. Aliás, diria como educador: sem isso, você pode escolher a sua melhor escola... não vai dar certo.
Para mim, participação de pai e mãe que vale para a vida é darem um tempo de amor intenso, de "qualidade" relacional aos seus filhos e filhas. É disso que eles precisam. De amor e carinho. De afeto e atenção.

Preocupada em garantir a vaga para o ensino fundamental nas escolas mais disputadas, a família nem sempre prioriza o que deveria priorizar no ensino infantil, que é o brincar. Esse exagero nas cobranças em relação ao futuro do filho pode ser prejudicial lá na frente?

Sempre que você pula uma etapa, deixa de viver uma experiência importante. E que não volta mais! As escolas cobram pré-requisitos absurdos para crianças de seis anos de idade. Por conta de sua paranoia de garantir bons resultados lá adiante. Por isso eu repito: é importante olhar para o filho, para a filha, e pensar: o que é próprio de uma criança de sua idade? O que o meu filho, a minha filha, pode? Vale sacrificar esse momento em busca de algo que seria vivido somente lá na frente? Não adianta alfabetizar aos 3 anos de idade, fazer adição aos 2, falar sobre as catástrofes humanas aos 4 e achar que estamos formando um sujeito sabidão! Educação é feita com paciência.
Aproveitar o momento. O aqui e o agora. Isso é educar para um mundo mais generoso. Como seríamos mais afetivos se respeitássemos o momento dos outros!

Muitos pais hoje em dia delegam à escola parte do que seria função da família, como a transmissão de valores e limites. Até onde vai o papel da escola e da família e como elas podem trabalhar em conjunto visando o melhor para as crianças?
Eu considero que a escola aceitou, em determinado momento, essa função e que agora é uma de nossas obrigações. No fim das contas, a escola aprendeu que não se pode separar as coisas. O que é do campo acadêmico daquilo que, teoricamente, é do campo familiar. Um estudante sem disciplina, sem organização, sem compreensão de grupo, não consegue estudar direito. A escola precisa ser firme e clara quando o tema é disciplina. Clareza é o que falta às escolas. As coisas sempre ficam subentendidas, com medo de se colocar limites, de dizer até onde ela, a criança, o jovem podem ir. Eles se sentem aliviados quando colocamos essas fronteiras. Essas linhas que delimitam espaços de vontades. Mas a escola precisa deixar isso claro para as famílias também. Precisa envolvê-las no tema, assim como as envolvem com o tema dos conteúdos. Caminhar juntos, em parceria, é caminhar com a clareza de que se tenta fazer o melhor.
O fundamental, na parceria (e voltamos à pergunta inicial), é a escola ser boa de escutar. A conversa é o melhor caminho para o entendimento. As famílias, quando estão à procura de uma escola, deveriam sentir se a escola se abre para as angústias, para as aflições do educar de pais e mães. Sem conversa, não existe educação possível!

A entrevista está disponível no: http://www.mamatraca.com.br/?id=49&