sábado, 15 de outubro de 2011

INTIMIDADE, FRONTEIRAS E VIZINHANÇA

POR MARCELO CUNHA BUENO

Há muito, me ocorreu que poderíamos começar a circular mais esses conceitos (nem sei se posso chamar assim) dentro dos espaços escolares.
Escola é espaço de relações. Educação é relação. Relação entre pessoas, entre conceitos, entre culturas, espaços, disposições afetivas.
São as relações as responsáveis por modificar corpos e espaços. Corpo no espaço, espaço do corpo: geografia.
Corpos dentro de um espaço escolar. Corpos que buscam se misturar, diferenciar, experimentar, bailar a ciranda das singularidades. Na medida em que me aproximo do outro, crio um espaço repleto de intenções. Um espaço desejante, que convida o outro a desenhar a arquitetura de uma coletividade. Convite aceito. Corpos dispostos a estarem juntos, cada um a seu modo... Nasce nosso primeiro conceito: o de vizinhança.
Comunhão de desejos, de vontades e saberes tensionados para a transformação de disposições individuais. Afirmação de singularidades, generosidade em compartilhar o mesmo sob diferentes perspectivas: vizinhança. Entendimento e reconhecimento de diferentes geografias, atenção às diferentes forças que tencionam a mesma corda, criando um espaço de força entre pessoas.
Transborda dessa relação de vizinhança, de coletividade, uma relação sobre outra relação, a intimidade. Algo profundamente singular, que aparece quando há um outro; entre o desejo de ser e a vontade de estar no mundo. Impresso, atravessado nas pessoas e coisas.
É na intimidade que moram as nossas percepções, as nossas ideias e representações sobre o espaço que habitamos. A intimidade, nesse caso, não é algo que nos pertence. Não é algo da ordem da individualidade, dos segredos do eu. É algo que está diretamente ligado à presença de um outro em nossas vidas. Intimidade é sempre múltipla. É pronome plural.
Só há intimidade quando se entende as fronteiras. Linhas imaginárias entre os corpos, as ideias, os conceitos. Linhas que contornam, não separam. Linhas que se dispõem em tramas, não desenham territórios. Linhas que costuram vontades, afetos, conceitos, criações.
Fronteiras é diferente de limites. Na escola, limites funcionam como dispositivos que definem espaços e criam uma sensação de patrulhamento das condutas individuais. É uma ética que afasta pessoas de forma pouco generosa. O meu limite é o outro. No outro, eu cesso as minhas vontades. Acabo no outro.
Com as fronteiras, é justamente o contrário. Meu limite é justamente o espaço entre mim e um outro. O outro é a potência daquilo que desejo, aprendo, quero. O outro é a minha condição de ser vivente. O outro é a afirmação de que eu estou a viver.
Sempre há espaços para se negociar, para nos transformarmos com palavras e sentimentos dos outros. Nas fronteiras, vive-se mais intensamente territórios individuais. Vive-se de forma mais justa, mais clara, sem melindres.
Aprende-se nas fronteiras. Aprende-se que crescemos justamente nesse espaço entre. Esse espaço que há entre diferentes forças. Esse espaço entre mim e o mundo. Todo o mundo.
Vizinhança, intimidade e fronteiras. Entre cada uma delas, uma imensidão de conceitos. Uma vastidão de forças que, aqui nesse texto, nessas palavras, querem compor novas formas de produzirmos entendimentos e desentendimentos na escola.
Circulemos!

Nenhum comentário:

Postar um comentário