segunda-feira, 13 de junho de 2011

A VIDA A ENGATINHAR

POR MARCELO CUNHA BUENO


Um corpo que se movimenta em busca do outro, do algo... que se movimenta como expressão de que está no mundo.
Engatinhar é um andar poético. Está entre os mundos da horizontalidade e da verticalidade. Entre esses dois mundos, o bebê pede um tempo para se levantar. Pede um tempo para tocar o mundo com as mãos. Para fazer delas a estrutura, o firme pisar, a mão na terra. Aliás, é com as mãos também que se apreende o mundo.
Elas te levam ao lugar desejado, apontam o objeto, experimentam-no, degustam-no. Alcançam os sonhos... são pás de sonhos.
Bebês engatinhando são engraçados. Não precisam muito olhar para frente... estão mais preocupados com os passos do presente. Olham a anatomia de cada movimento desenhando seu caminho no aqui e agora. Antes, o que era deitado, o que via os céus, que enxergava o norte, o oeste e o leste, ganhou mais um ponto cardeal... o sul. Engatinhar é dar perspectiva ao sul, ao que está embaixo, ao chão, ao concreto, à realidade.
Para engatinhar, é preciso coragem, equilíbrio. É preciso encontrar motivos no mundo, ter vontade de andar por ele, de começar a fazer histórias com as próprias mãos. Engatinhar é um movimento solitário. As mãos estão para dar equilíbrio daquele corpo. Ainda não estão disponíveis para convidar o outro a passearem de mãos dadas.
É um momento importante. É um tempo intenso de encontros com o viver. É um se levantar para o mundo. É generoso.
É devagar. É fundamental para elaborarmos o fato de estarmos no mundo.
A gestação é um engatinhar da vida que vai chegar. Mas esse... é melhor fazer de mãos dadas!