segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

VIVER A INFÂNCIA

POR MARCELO CUNHA BUENO
As crianças vivem a vida. Os adultos gostam de nomeá-la.
Aproximemo-nos dessa perspectiva para pensarmos o quanto nos mobilizamos quando estamos diante de uma criança. Depois de algum tempo convivendo todos os meus dias com as crianças, aprendi que o mais importante do viver cotidiano é a forma como nos relacionamos com o mundo. Uma relação sensível, que cria um espaço de atravessamentos de sensações, de sentimentos e de saberes. Um espaço tão aberto que, ao deixarmos o mundo entrar, saímos um pouco, desfazemo-nos, tornando-nos também um pouco do outro. Fora e dentro nos compõem! Assim fazem as crianças quando estão a se entregar a algo novo, diferente, ou ao mesmo de todo dia. Sempre há a possibilidade de acontecer o diferente. É como se a sensação de mudarmos as histórias fosse afirmada a cada instante. Criança pode se sentir mais sujeito. Quem nomeia a vida a todo instante, buscando significados antes de existir questões, não. Quem nomeia está assujeitado!
Vejo muitas relações dentro dos espaços escolares que tentam assujeitar as crianças, aprisionar os seus intentos de conhecer e transformar o mundo pelos sentidos. Não estou falando de transformações ideais, estou falando dos mundos internos, dos sentidos pessoais. Escolas que tentam classificar seus estudantes por meio de rankings, de apostilas, de testes, de nomenclaturas e diagnósticos que generalizam cada ação e pensamento da criança. Transformando uma infância “na infância”... uma criança “na criança”, em massa.
A criança tenta escapar. Brinca, faz segredos. Entendo essa escapada como infância. Uma infância que se afirma como um espaço distante desse afã nomeador, dessa vontade de nomear e controlar.
Nós, os adultos que nomeiam, deveríamos nos unir para multiplicar esses espaços de escape, de infância. Deveríamos possibilitar às crianças um espaço mais afirmativo de suas relações. É por meio delas que existe o aprender, o ensinar, o brincar, o escutar, o viver. Escola e família são espaços de atravessamentos de crianças e de infâncias.
Sinto-me renovado todos os dias quando me entrego aos afetos das crianças. Quando as escuto, quando sou escutado, quando converso, quando as vejo correr, brincar. Afetar-se com as crianças é estar aberto ao que elas têm para nos ensinar. Aprender com elas é o movimento que fazemos quando estamos atentos às coisas que as palavras marcadas não podem contar.
Celebrar uma infância, uma criança, é dar-se ao outro, à relação.
É estar também nesse espaço, onde o mais importante é viver com o outro. Para comemorar a infância, é preciso deixar de vê-la fora de nós. Ela está aqui dentro, basta viver.