sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

AS COISAS QUE AS CRIANÇAS NOS ENSINAM

Por Marcelo Cunha Bueno

As crianças nos ensinam muitas coisas, mais do que podemos imaginar!
A minha escolha por ser educador me leva a constantes pensamentos sobre o que se pode aprender com cada atitude, gesto, olhar de uma criança. Quando se está na escola, o maior esforço que um educador pode fazer é o de singularizar os seus olhares. Educar é se abrir a um espaço relacional que acontece nos contextos coletivos, mas que pressupõe uma disposição afetiva para as individualidades.
Uma das coisas que ando aprendendo com as crianças com que convivo é que elas provocam crescimento em seus pais e mães. Não é de hoje que atendo famílias que se perdem na hora de fazer uma intervenção com seus filhos e filhas, justamente porque não se encontram no momento em que eles estão. Veja, pais e mães têm de acompanhar o crescimento de seus filhos, de suas filhas. É comum vê-los tratar as crianças grandes como se ainda fossem pequeninas e as pequenas como se fossem grandes!
Ultimamente, o que mais escuto e o que me traz até esse texto é que as famílias jogam para o mundo o fato das crianças se desinteressarem pelo estudo, pelas letras, pelos números, pelos desenhos. Sempre quando escuto uma questão dessa, começo a pensar que nós, adultos, temos uma necessidade extrema pela estabilidade. Não conseguimos admitir que as coisas, principalmente quando estão ligadas aos afetos, são maleáveis, passíveis de mudanças, de transformação. É possível gostar de uma coisa hoje e, amanhã, não querer mais saber dela! Assim é a vida! Aliás, isso é o que deixa a vida bela, interessante!
Inconformados com o “desinteresse” da criança frente a determinadas questões (e nunca se levam em conta as coisas, as várias coisas pelas quais a criança se interessa), pais e mães procuram na escola os motivos da mudança. Alimentam esse espaço com culpas, acusações e uma pressão, que acabam por enraizar algumas relações que não estavam ali antes.
As crianças nos mostram que devemos ajudá-las a atravessar seus movimentos e questionamentos, afinal, aprende-se também com os desconfortos do crescimento.
Por que não ajudamos as crianças a sentirem o que sentem? Por que queremos evitar que gostem menos daquilo que achamos que se deve gostar? Por que não deixamos que esses movimentos estreitem os laços entre escola e família?
A escola tem de ser sensível e perceber quando a mudança pode contribuir para o crescimento... e cuidar de suas responsabilidades, que é ensinar, com atenção e afeto. A família tem de perceber a vitalidade dos sentimentos que se vivem enquanto se está a crescer, a aprender! Se o seu filho ou a sua filha não está no lugar que você queria que estivesse, pense que é uma oportunidade para repensar a relação com ele e com ela. É uma oportunidade de nos refazermos, pensarmos sobre as nossas expectativas em relação ao crescimento. Desinteressar-se por isso, sofrer com aquilo fazem parte de estar na escola, fazem parte da vida. Confiar na escola deveria ir além das nomenclaturas pedagógicas, das notas e rankings. Confiar na escola deveria estar ligado muito mais aos cuidados com os singulares afetos, com a afirmação de que somos únicos naquilo que sentimos. Quero é chamar pais e mães, professores e coordenadores, diretores e afins a trabalharem juntos por cada um... e se entregarem às transformações pessoais ensinadas pelas crianças.

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