quinta-feira, 15 de abril de 2010

OS TEMPOS DE LER E ESCREVER

MARCELO CUNHA BUENO

Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... Pois entramos num outro mundo. Imagine o seguinte: as crianças acabaram de começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança da escrita. Vem um batalhão de cadernos com linhas, de letras enlatadas, de cartilhas... Vem a cobrança dos professores, da família. Veja que não estou falando de uma criança de seis anos, mas de três e quatro! Cada coisa! Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Criança aprende a escrever quando as letras deixam de ter o peso das palavras que querem significar. Leva um tempo do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos, conquistas, questões, serão os companheiros de viagem das crianças. O que é muito bom, pois, só por eles acontecerem, já nos mostra como as coisas estão, quais intervenções fazer...
Sempre digo: quanto mais se escreve, melhor se escreve, quanto mais se lê, melhor se lê.
A alfabetização não se restringe apenas à decodificação do alfabeto. Não é somente juntar umas letras aqui, outras acolá. Ler e escrever vai além. Ler e escrever é expressar o que se pensa, o que se sente, é saber que essa comunicação precisa de alguém que fale, alguém que escute... Para que, por que, para quem se escreve?
Com três e quatro anos, por mais que as crianças estejam escrevendo as letras, geralmente, são as dos nomes delas, ou as dos nomes de seus familiares mais próximos, ou as de seus amigos. Mas ainda têm um caminho para percorrer. Um caminho que deve ser planejado pela escola. Um caminho que pede tempo. Um tempo mais alargado, sem pressa, sem pressão... Um caminho que equilibra perfeitamente brincadeira, jogos, danças, pinturas e desenhos com letras e números. Ninguém escreve mais e melhor porque a escola puxou a alfabetização para três anos. Pelo contrário. Há tempo para tudo.
Teoricamente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade. Sabe, nessa época, entre cinco e seis anos, gosto de conversar com as famílias para explicar sobre esse caminho pelas letras. Possíveis intervenções, tirar aqueles medos do que “pode” e “não pode” ser feito, conversar sobre ideias de “acertos” e “erros”. Tudo isso é importante para não confundir as coisas nesse momento tão importante para a criança.
Algumas dicas para todas as idades, inclusive para pais e mães: a boa e velha leitura antes de dormir. Você pode alternar a ordem da leitura com seu filho ou filha. Procure compartilhar escritas com as crianças... coisa simples: listas de compras, coisas da rotina, preferências musicais e literárias... Pense que as crianças começam a escrever com letras de forma maiúsculas, depois, passam a ler livros com letras de imprensa, até chegarem à letra cursiva. Leia a lista de supermercado e outras listas. Imprima músicas, histórias e contos que ela goste e leiam juntos.
Tenho certeza de que são pensamentos simples e comprometidos com o tempo das crianças que farão as suas histórias serem escritas com grandes e bonitas letras!

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