sexta-feira, 23 de abril de 2010

ENTRE A INFÂNCIA E AS INQUIETAÇÕES DE UMA ALICE – ESPAÇOS PARA UMA LÍNGUA EM TRADUÇÃO.

POR MARCELO CUNHA BUENO


Tive de me jogar no abismo, entregar-me à queda para estar aqui, com Alice... e continuo caindo. Não tenho a intenção de forçar a barra e criar associações superficiais entre Alice e uma escola, uma infância, um alguém que traduz. Minha intenção é costurar lugares, personagens e efemeridades entre uma infância e o país das maravilhas, das inquietações. A Alice e um infantil, que pode ser eu, vocês, nós-outros.
Quero propor um jogo, uma escrita, um sonho, uma brincadeira, um fantasiar nessas linhas, em vossa escuta. Um jogo que se joga desde dentro, desde o interior das representações. Um jogo entre infância e arte. Algo que afirma potência, inverte formas, recria imagens, rompe linhas dos tempos e se faz entre, intermezzo! O convite para entrar nesse mundo é pensar do lugar, ou dos lugares, do TRADUTOR. Esse que convida pela língua a habitarmos outra língua, a mesma língua, culturas. Esse que pretende ser as palavras escritas para depois ser palavras ouvidas. Esse que habita intenções, que decifra códigos, que procura espelhos. Traduzir, no meio das contas, é atravessar o espelho. É enxergar para além daquilo que vemos dos personagens, que lemos sobre os lugares e projetamos como o livro. Traduzir é romper a razão, em busca da aventura de encontrar, ou perder, uma palavra louca, que tenta ser para ser vista, sentida. Traduzir é um ato generoso, de endereçamento anônimo, para alguém que não está lá, ainda. Traduzir é afetar no ato de ser afetado!
Traduzir é habitar o mundo do outro por palavras. É ser um pouco o personagem do outro, é vestir-se de uma língua que compõe lugares, atmosferas, personagens. Nesse caso, é ser o coelho, o gato, a menina, a duquesa, é estar no átrio, no jardim. Ser cada um e todos, e ainda ser aquele que lê. Traduzir é receber palavras, e dá-las. É transformar, como nos diz ou disse Octávio Paz: “a poesia do poeta na poesia do leitor”.
Traduzir é escrever novamente, recontar, inventar, falar de mentirinha. Casar culturas, afirmar outras! O tradutor é um costureiro, um alfaiate, um convidador! “Venha, leia isso e sinta as minhas escolhas em palavras”. Traduzir é falar ao pé do ouvido do sonho. É um presente, uma lembrança da língua para a cultura.
O País das maravilhas é a possibilidade de sermos tradutores de nossas próprias vidas. O País da maravilhas é a afirmação dos mundos babélicos que nos compõem. É o lugar para nos encontrarmos, como diz o sorriso do gato, com as nossas loucuras, e as dos outros.
Viver a infância é se entregar ao universo babélico da língua. É atravessar o dia-a-dia sempre com um dialeto diferente, sempre de uma forma diferente. A infância se localiza no entre, no talvez, na incerteza, como as palavras traduzidas. Crescer não é encontrar um jardim, crescer é viver nesse espaço entre aumentar e diminuir de tamanho, ler e falar com outras palavras, falar e silenciar.
Eu, como um leitor, de dentro do livro, escorregando nas palavras que o livro me regala, sinto-me gato, coelho, Dodô. Sou o brincar de ser essa língua que Carroll, Alice, Sevcenko e Zerbini inventaram.
*Esse texto foi escrito em queda livre para a mesa redonda realizada na Livraria Cultura, no último dia 22 de abril. A proposta era discutir alguns aspectos do livro "Alice no país das maravilhas". O encontro foi idealizado pela Editora Cosac & Naify e contou com a participação do brilhante ilustrador Odilon Moraes e da editora Isabel Lopes Coelho. Não deixem de ler e sentir essa impressionante edição de Alice... produzido pela Cosac!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

OS TEMPOS DE LER E ESCREVER

MARCELO CUNHA BUENO

Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... Pois entramos num outro mundo. Imagine o seguinte: as crianças acabaram de começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança da escrita. Vem um batalhão de cadernos com linhas, de letras enlatadas, de cartilhas... Vem a cobrança dos professores, da família. Veja que não estou falando de uma criança de seis anos, mas de três e quatro! Cada coisa! Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Criança aprende a escrever quando as letras deixam de ter o peso das palavras que querem significar. Leva um tempo do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos, conquistas, questões, serão os companheiros de viagem das crianças. O que é muito bom, pois, só por eles acontecerem, já nos mostra como as coisas estão, quais intervenções fazer...
Sempre digo: quanto mais se escreve, melhor se escreve, quanto mais se lê, melhor se lê.
A alfabetização não se restringe apenas à decodificação do alfabeto. Não é somente juntar umas letras aqui, outras acolá. Ler e escrever vai além. Ler e escrever é expressar o que se pensa, o que se sente, é saber que essa comunicação precisa de alguém que fale, alguém que escute... Para que, por que, para quem se escreve?
Com três e quatro anos, por mais que as crianças estejam escrevendo as letras, geralmente, são as dos nomes delas, ou as dos nomes de seus familiares mais próximos, ou as de seus amigos. Mas ainda têm um caminho para percorrer. Um caminho que deve ser planejado pela escola. Um caminho que pede tempo. Um tempo mais alargado, sem pressa, sem pressão... Um caminho que equilibra perfeitamente brincadeira, jogos, danças, pinturas e desenhos com letras e números. Ninguém escreve mais e melhor porque a escola puxou a alfabetização para três anos. Pelo contrário. Há tempo para tudo.
Teoricamente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade. Sabe, nessa época, entre cinco e seis anos, gosto de conversar com as famílias para explicar sobre esse caminho pelas letras. Possíveis intervenções, tirar aqueles medos do que “pode” e “não pode” ser feito, conversar sobre ideias de “acertos” e “erros”. Tudo isso é importante para não confundir as coisas nesse momento tão importante para a criança.
Algumas dicas para todas as idades, inclusive para pais e mães: a boa e velha leitura antes de dormir. Você pode alternar a ordem da leitura com seu filho ou filha. Procure compartilhar escritas com as crianças... coisa simples: listas de compras, coisas da rotina, preferências musicais e literárias... Pense que as crianças começam a escrever com letras de forma maiúsculas, depois, passam a ler livros com letras de imprensa, até chegarem à letra cursiva. Leia a lista de supermercado e outras listas. Imprima músicas, histórias e contos que ela goste e leiam juntos.
Tenho certeza de que são pensamentos simples e comprometidos com o tempo das crianças que farão as suas histórias serem escritas com grandes e bonitas letras!