quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

RE-COMEÇOS

POR MARCELO CUNHA BUENO
Esse texto foi escrito (e sentido) para receber os professores e professoras da Estilo no primeiro dia de aula desse novo ano...

Pensar nesse espaço entre... entre os atos que nos fizeram chegar até aqui.
Para chegarmos a esse ponto, precisamos de tempo, de espaço fora do espaço. Esvaziar os espaços cheios preenchidos e saturados ao longo de um longo ano. Ruptura. Todo começo é uma espécie de ruptura. Pensar é sempre romper. É sempre dar-se a algo mesmo-diferente. Pensar é habitar dobras. Entrecaminhos que se potencializam quando favorecem colisões. Dobrar-se é se romper. Romper é desafiar um tempo. Romper é colidir o tempo passado, o presente, o futuro. O tempo é uma dobra. O começo é sempre mais uma dobra.
A criança olha o começo sempre de forma diferente... sem aquela sensação do “mais uma vez”. É um “mais uma vez” renovado pela sensação de que sempre se pode mais, sempre se pode querer mais.
Talvez não seja nem um querer, mas um precisar mais uma vez, de um começo. Um espaço que afirma qualquer possibilidade. Qualquer. O que me faz precisar chegar aqui? O que me faz precisar desse emaranhado de discursos, quereres, vontades, desejos, ideias e precisares?
Perguntas que nos movem. Quais as palavras que escolhemos para nos perguntar dia após dia o que representa estar nesse lugar Escola? Quais são as palavras que achamos que nos diferenciam daqueles que não as têm em palavras?
Aqueles que palavreamos em crianças nos perguntam a todo instante: o que querem ver? O que enxergam em mim? Qual a sua porção naquilo que sou? Criança é convite! Um convite generoso para um olhar. Um olhar convidativo... rodopiante! Entre o dentro e o fora, o interno e o externo. Um convite que olha para além do “eu”. Um convite para ser espectro, desimagem, desforma, desfoco.
Nesse sentido, se aceitarmos o convite, somos todos esse emaranhado de gente, essa multidão de corpos... que só se encontrariam quando perguntássemos por ele, no outro. Perguntar é acontecimento. Acontecimento que mistura palavras, desejos, saberes, ignorâncias, vontade de ter, ser e habitar outros. Perguntar é educar... livre de processos de ensino e aprendizagens... temos ensinagens como condição desse jogo que alguns chamam de educação... aqui, podemos chamar de aventura!
Conquista. Um “mais uma vez” que pergunta, indaga por uma existência afirmativa, infinita, potente, geradora de novos mundos. Mundos compostos por partículas poéticas dos olhares, sabores, desejos que compõem infâncias.
Um olhar que inventa uma língua, uma língua que inventa um aqui agora infantil. Infância que pergunta sempre pelo jogo. O jogo de esconder segredos desse viver uma e outra vez... de ser, uma e outra vez.
A escola pode ser um convite. Educar é convidar o outro para a renovação, um começo de um começo. Aqui, tentamos fazer uma festa no salão de festas de babel. Vir para esse espaço e perguntar o que te convida, o que nos convida a dançar esse baile perfumado de infâncias. Qual o sentido, se é que há algum ou que devamos pensar assim, em fazer dos dias, “todos os dias”, 200 dias deles. O que me chama? Com que palavras me chama? Como atravesso esse convite?
Pensar também nos nossos chamados, nossos convites, no “dar a convidar alguém”, conceitos, coisas. Como convido? Quem escolho? Por que escolho? Será um convite que...
Multiplica? Quando, de que forma, com que finalidade?
Que ignora? Às custas de quem, do quem?
Que esquece? E o que potencializo? O que afirmo?
Que des-usa? Para inverter, para confrontar, para jogar.
Que escolhe? Para fragmentar, ou para multiplicar?
Escolher é se jogar num abismo. A criança é um labirinto desajustado. É o que nos faz perder o foco quando temos de andar em linha reta, encaixar chaves em portas, equilibrar-se numa perna só. Labirinto girador, gozador de uma ordem linear de uma neurociência da consciência da realidade desse mundo.
Labirinto é jogo. É um convite com um mapa desajustado. Jogo de esconder e se perder. Jogo de desfocar o torto do caleidoscópio. Jogo infantil que entorta pernas, rodopia pés, enlaça mãos.
Infância é jogo, sem foco, desfocada, textura cinzenta e embaçada para os olhos adultos. Um labirinto.
Mais um ano... para alguns – e que sejam bem-vindos –, o novo, o incerto, o potente em possibilidades, o repleto de expectativas... para outros – sejam bem-vindos também –, o tudo novo de novo, o mais uma vez, o mapa certeiro, a rota delineada... para alguns, a queda, o cair lentamente, a falta de ar, o coração na mão, a inconsciência, o espatifar-se... e, então... uma mão, um olhar, a generosidade de se sentir cuidado, junto, sempre... todos os dias, 200 deles... mais uma vez! Para esses, não há lugar de bem para vindar... só isso que deixamos escapar... isso ao que insistimos em educar... um eterno e mesmo convite para bailarmos entre príncipes e princesas, polícias e ladrões, gatos e cachorros, mamãe e papai, peixes, navegadores, cidades, locomotivas, chaplins, grafites, águas, pés e orixás.

Um comentário:

  1. O baile...Nada é garantido e em nada é colocado o PESO infinito da confiança...Tudo é possível!
    E eu me inspiro em vc, e penso compreender a dimensão do seu olhar...Sem certeza, sem expectativa...Apenas agradecida pelo atravessamento...Um abraço decalcado

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