sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PROCURA-SE HOMENS PROFESSORES

Por Marcelo Cunha Bueno

Uma das coisas mais interessantes que as famílias comentam quando visitam a minha escola é sobre o fato de ter muitos homens professores na Educação Infantil. Pudera, a profissão de professor sempre está associada à imagem da mulher. Uma mulher sensível, mãe, tia, que pode cuidar das crianças como cuidaria de seus sobrinhos, de seus filhos. Ela passa uma imagem de confiança, de zelo e de responsabilidade. Conheço pouquíssimas escolas que se arriscam a invadir seus espaços infantis com homens professores.
Tomo muito cuidado quando trato desse tema com as pessoas, pois não gosto de provocar essa discussão de qual gênero se adapta melhor à escola, de quem está mais apto a cuidar e educar crianças. Acho isso uma afronta ao espaço, que deve ser múltiplo, sempre afirmativo e agregador. Não quero provocar uma guerra dos sexos com essa discussão, mas encorajar às escolas a terem mais homens em suas equipes de professores.
Quando escolhi ser professor, jamais passou pela minha cabeça que não seria capaz de cuidar, zelar, ser sensível às crianças por ser homem. Não foi complicado encontrar uma escola que me aceitasse como professor. Aliás, tive muita sorte e privilégio de me tornar professor na escola em que trabalhava antes de começar com a Estilo.
Mas vejo muitos meninos, recém-formados em pedagogia, que querem trabalhar em escolas e não conseguem emprego. Já é difícil encontrar homens na faculdade de educação!
A presença de homens em uma escola de Educação Infantil inverte a noção de que só mulheres estão preparadas para cuidar e educar as crianças. Inverte a lógica, imposta pelo tempo, de que essa profissão não precisa ser valorizada, pois cuidar de crianças está no sangue da mulher, da mãe.
Acho muito importante que as escolas procurem e valorizem a escolha de homens que se arriscam na seara da Educação Infantil. Fazer essa escolha já demonstra uma vontade política, no sentido da afirmação social da profissão. Precisamos multiplicar as possibilidades de contato dessas crianças. Multiplicar as diferentes experiências de gênero trazidas pelo homem e pela mulher, experimentar as vivências que o masculino e o feminino podem proporcionar ao espaço escolar... e presenciar a formação de um outro espaço de educação, mais democrático no que se refere ao gênero. Mas há barreiras que devem ser rompidas. Insistência e resistência são o segredo para construirmos um espaço para os homens na escola.
Já presenciei famílias que demonstraram um enorme desconforto quando perceberam que os professores de suas filhas seria um homem. Quem vai levá-las ao banheiro? Não é o professor, né? E por que não seria? Já tive de escutar de um pai que não queria que o professor demonstrasse tanto carinho pelo seu filho de 2 anos... “Homens não devem se abraçar tanto, dar tantos beijinhos”.
Diante dessas situações, vemos como esse espaço escolar está marcado pela presença dessa professora cuidadora, imparcial, quase sem personalidade afetiva. Como é possível um homem demonstrar afeto para os seus estudantes, que são crianças? São estereótipos, preconceitos presentes não só no espaço escolar, mas em muitos lugares sociais.
Eu, quando era professor, sabia que aquele espaço precisava ser afirmado todos os dias. Que o meu papel precisava também ser construído. Nunca tive e experimentei qualquer situação como essa relatada, e olha que eu sempre fui muito carinhoso com todas as crianças que foram minhas alunas. Isso me mantinha vivo!
Seria bom se um dia a presença de um homem na escola não fosse uma diferença... seria bom se as pessoas pudessem ser respeitadas por suas escolhas, simplesmente. Seja na escola ou para além dela. Que cada professor renove sua escolha no dia 15 de outubro!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ENTRE O BRINCAR E A BRINCADEIRA

POR MARCELO CUNHA BUENO
Tenho muito cuidado quando o assunto é “o brincar”. Muitos discursos presentes em escolas, famílias, professores e qualquer pessoa que pense sobre “uma infância” falam do brincar como se fosse “a condição” para “ser criança”. Um brincar que mais se parece uma obrigação (aqueles que não o fazem não são crianças), do que uma experiência de vida, uma afirmação de vida.
O brincar não é algo que seja da infância, como uma condição natural dela. A brincadeira é uma prática de viver, uma experiência poética de conexão com as coisas que se percebem, sentem e se pensam sobre o mundo. O brincar é um convite para uma viagem, em sentidos diversos: dentro para fora, fora para dentro, daqui pra lá, de lá pra cá. Dessa forma, não está localizado na brincadeira, no jogo, mas numa possibilidade de relação. Brincar é se relacionar, brincar é relação. Brincar é se relacionar com o mundo de uma forma mais sensível. A isso chamo experiência poética. E, nessa experiência, brincamos todos: crianças, adultos, pais e mães, filhos e avós...
O brincar não é uma condição de ser criança. Não é uma vontade que nasce com a criança, mas é aprendida por ela. E, por ser aprendida, assim como qualquer coisa, por exemplo, ler e escrever, pode ser ensinada. Aprendemos a brincar quando alguém nos convida para essa vida-brincadeira. Gosto de pensar que muitas vidas cabem num brincar! Criança aprende a brincar quando percebe o mundo com os seus sentidos. Quando observa, sente, escuta... degusta os acontecimentos cotidianos. Ser mamãe, ser papai, ser bombeiro é ser um pouco dos meus desejos, daquilo que ainda não sei. Existe o brincar com brinquedo, o brincar de transformar o brinquedo, o brincar de se fantasiar, o brincar de jogar, o brincar falado, dançado, pulado, o brincar cantando, o brincar rodando. Há muitos brincares num brincar!
Mas tomemos cuidado com essa ideia de que ensinamos a brincar. Muitas escolas colocam a brincadeira em um lugar sério, por isso, pedagogizam esse momento com brincadeiras regradas, com horários e espaços marcados. A criança aprende a brincar seriamente, o professor ensina a aprender seriamente. Há gente que diz que brincadeira é “estímulo”. Inventam brinquedos educativos, como se houvesse algum que não provocasse uma ação educativa e cultural. Ninguém precisa do brinquedo repleto de cores, repleto de formas e propostas para aprender algo.
Os melhores brinquedos não querem dizer nada com suas formas ou propostas, apenas existem na imaginação de cada um! Nenhuma criança precisa de brinquedos cheios de penduricalhos e de especialidades para ser feliz!
Temos de entender que ensinar o outro é se dispor ao outro, é ser um pouco do outro. É se transformar com o outro. E isso é brincar! É se relacionar! Brincar até sermos o que queremos ser... e mudar! Brincar para ler mundos, para inventá-los. Brincar porque é simplesmente bom demais!
Proponho o nascimento de um ser brincante, algo entre o brincar e a brincadeira, algo entre a ação e a intenção, algo entre o que se aprende e o que se ensina. Uma criança brincante que escolhe ser professor, um adulto brincante que quer ser a princesa, a mãe brincante que quer ser mulher, e o filho brincante que só quer...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

ENTRE A INFÂNCIA E AS INQUIETAÇÕES DE UMA ALICE – ESPAÇOS PARA UMA LÍNGUA EM TRADUÇÃO.

POR MARCELO CUNHA BUENO


Tive de me jogar no abismo, entregar-me à queda para estar aqui, com Alice... e continuo caindo. Não tenho a intenção de forçar a barra e criar associações superficiais entre Alice e uma escola, uma infância, um alguém que traduz. Minha intenção é costurar lugares, personagens e efemeridades entre uma infância e o país das maravilhas, das inquietações. A Alice e um infantil, que pode ser eu, vocês, nós-outros.
Quero propor um jogo, uma escrita, um sonho, uma brincadeira, um fantasiar nessas linhas, em vossa escuta. Um jogo que se joga desde dentro, desde o interior das representações. Um jogo entre infância e arte. Algo que afirma potência, inverte formas, recria imagens, rompe linhas dos tempos e se faz entre, intermezzo! O convite para entrar nesse mundo é pensar do lugar, ou dos lugares, do TRADUTOR. Esse que convida pela língua a habitarmos outra língua, a mesma língua, culturas. Esse que pretende ser as palavras escritas para depois ser palavras ouvidas. Esse que habita intenções, que decifra códigos, que procura espelhos. Traduzir, no meio das contas, é atravessar o espelho. É enxergar para além daquilo que vemos dos personagens, que lemos sobre os lugares e projetamos como o livro. Traduzir é romper a razão, em busca da aventura de encontrar, ou perder, uma palavra louca, que tenta ser para ser vista, sentida. Traduzir é um ato generoso, de endereçamento anônimo, para alguém que não está lá, ainda. Traduzir é afetar no ato de ser afetado!
Traduzir é habitar o mundo do outro por palavras. É ser um pouco o personagem do outro, é vestir-se de uma língua que compõe lugares, atmosferas, personagens. Nesse caso, é ser o coelho, o gato, a menina, a duquesa, é estar no átrio, no jardim. Ser cada um e todos, e ainda ser aquele que lê. Traduzir é receber palavras, e dá-las. É transformar, como nos diz ou disse Octávio Paz: “a poesia do poeta na poesia do leitor”.
Traduzir é escrever novamente, recontar, inventar, falar de mentirinha. Casar culturas, afirmar outras! O tradutor é um costureiro, um alfaiate, um convidador! “Venha, leia isso e sinta as minhas escolhas em palavras”. Traduzir é falar ao pé do ouvido do sonho. É um presente, uma lembrança da língua para a cultura.
O País das maravilhas é a possibilidade de sermos tradutores de nossas próprias vidas. O País da maravilhas é a afirmação dos mundos babélicos que nos compõem. É o lugar para nos encontrarmos, como diz o sorriso do gato, com as nossas loucuras, e as dos outros.
Viver a infância é se entregar ao universo babélico da língua. É atravessar o dia-a-dia sempre com um dialeto diferente, sempre de uma forma diferente. A infância se localiza no entre, no talvez, na incerteza, como as palavras traduzidas. Crescer não é encontrar um jardim, crescer é viver nesse espaço entre aumentar e diminuir de tamanho, ler e falar com outras palavras, falar e silenciar.
Eu, como um leitor, de dentro do livro, escorregando nas palavras que o livro me regala, sinto-me gato, coelho, Dodô. Sou o brincar de ser essa língua que Carroll, Alice, Sevcenko e Zerbini inventaram.
*Esse texto foi escrito em queda livre para a mesa redonda realizada na Livraria Cultura, no último dia 22 de abril. A proposta era discutir alguns aspectos do livro "Alice no país das maravilhas". O encontro foi idealizado pela Editora Cosac & Naify e contou com a participação do brilhante ilustrador Odilon Moraes e da editora Isabel Lopes Coelho. Não deixem de ler e sentir essa impressionante edição de Alice... produzido pela Cosac!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

OS TEMPOS DE LER E ESCREVER

MARCELO CUNHA BUENO

Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... Pois entramos num outro mundo. Imagine o seguinte: as crianças acabaram de começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança da escrita. Vem um batalhão de cadernos com linhas, de letras enlatadas, de cartilhas... Vem a cobrança dos professores, da família. Veja que não estou falando de uma criança de seis anos, mas de três e quatro! Cada coisa! Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Criança aprende a escrever quando as letras deixam de ter o peso das palavras que querem significar. Leva um tempo do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos, conquistas, questões, serão os companheiros de viagem das crianças. O que é muito bom, pois, só por eles acontecerem, já nos mostra como as coisas estão, quais intervenções fazer...
Sempre digo: quanto mais se escreve, melhor se escreve, quanto mais se lê, melhor se lê.
A alfabetização não se restringe apenas à decodificação do alfabeto. Não é somente juntar umas letras aqui, outras acolá. Ler e escrever vai além. Ler e escrever é expressar o que se pensa, o que se sente, é saber que essa comunicação precisa de alguém que fale, alguém que escute... Para que, por que, para quem se escreve?
Com três e quatro anos, por mais que as crianças estejam escrevendo as letras, geralmente, são as dos nomes delas, ou as dos nomes de seus familiares mais próximos, ou as de seus amigos. Mas ainda têm um caminho para percorrer. Um caminho que deve ser planejado pela escola. Um caminho que pede tempo. Um tempo mais alargado, sem pressa, sem pressão... Um caminho que equilibra perfeitamente brincadeira, jogos, danças, pinturas e desenhos com letras e números. Ninguém escreve mais e melhor porque a escola puxou a alfabetização para três anos. Pelo contrário. Há tempo para tudo.
Teoricamente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade. Sabe, nessa época, entre cinco e seis anos, gosto de conversar com as famílias para explicar sobre esse caminho pelas letras. Possíveis intervenções, tirar aqueles medos do que “pode” e “não pode” ser feito, conversar sobre ideias de “acertos” e “erros”. Tudo isso é importante para não confundir as coisas nesse momento tão importante para a criança.
Algumas dicas para todas as idades, inclusive para pais e mães: a boa e velha leitura antes de dormir. Você pode alternar a ordem da leitura com seu filho ou filha. Procure compartilhar escritas com as crianças... coisa simples: listas de compras, coisas da rotina, preferências musicais e literárias... Pense que as crianças começam a escrever com letras de forma maiúsculas, depois, passam a ler livros com letras de imprensa, até chegarem à letra cursiva. Leia a lista de supermercado e outras listas. Imprima músicas, histórias e contos que ela goste e leiam juntos.
Tenho certeza de que são pensamentos simples e comprometidos com o tempo das crianças que farão as suas histórias serem escritas com grandes e bonitas letras!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

UM ESTILO

MARCELO CUNHA BUENO
Poderia começar dizendo que a Estilo pode ser um sonho. Um sonho que nunca existiu, que foi sonhado na medida em que era vivido. Um sonho que se sonha junto... de professores, de crianças, de pais, de mães, de pessoas, de estudantes, de representações, de ninguém. Um sonho que adormece quando se vive, que desperta quando se pensa. Mas falar que a Estilo é um sonho é algo muito pessoal, pois é só o meu sonho narrado. A Estilo é um espaço.
Espaço, aqui e ali... deslocado dos espaços marcados de uma educação por métodos. Ao invés, uma educação que cria espaços e permite que qualquer forma possa habitá-lo. Para habitá-lo, basta freqüentá-lo. Espaço para des-encontros, des-entendimentos, des-construções... dimensões. Um espaço de múltiplas línguas. Línguas que se conversam, que se reinventam quando faladas, quando sentidas. Uma língua composta por sons, por palavras, por gestos, por ruídos, por sensações, por composições dissonantes. A Estilo pode ser uma confluência de línguas, de idiomas. Um espaço de coexistência de tudo aquilo que pode ser pensado, compartilhado.
A Estilo pode ser um bando... múltiplos, composta por singularidades reinventadas. Um bando de pessoas emocionadas, em movimento, circulando pelas infinidades. Pessoas que se abrem às incríveis possibilidades de contato, de relação. Um bando nos outros, um bando com os outros, um bando em nós! Em cada um-estilo que nos compõe.
A Estilo pode ser uma espera.... Uma espera silenciosa, que entende seu tempo, que lê o que não está escrito e o que não pode ser escrito. Uma espera pelo outro, já que estamos em bando. Uma espera que compõe nós-outros. Esperar o outro... Uma espera de algo que vai nos atravessar e nos fazer esperar mais um pouco.
A Estilo pode ser um rascunho. Que se faz figura quando se entende criação. Rascunho de traços, de rabiscos, de letras trocadas, de dimensões inabitadas, de espaços em branco, de espaços cheios... Um rascunho, como uma primeira idéia, uma primeira intenção, um primeiro desejo. Rascunho e garatuja. Um desenho repleto de sentidos, composto por qualquer forma, formas que não importam. Um desenho que se refaz sempre que habitado.
A Estilo é nada, pois não se encontra, não é, não pode ser, não se vê... sente-se, apenas. Sentimos sua presença em cada espaço com ausências de nomes, em cada pulso e ritmo dos passos dos inúmeros andarilhos que a atravessam. A Estilo vibra, faz som, produz silêncios, ecoa, inventa sons... dissonantes.
Na Estilo, habitam saberes marginais, vagabundos, periféricos. Saberes que deslizam... plasmam-se, des-formam-se. Saberes ignorantes... ignorâncias. Delírios, alucinações, sonhos, idéias, fabulações, literaturas, devaneios, surrealismos, cubismos, impressionismos.
A Estilo não é de ninguém e é de todo mundo.
A Estilo pode ser escola, mas pode não ser. A Estilo é e existe somente no presente, quando se fala dela, quando se acha que pensa nela. A Estilo não serve para nada... nem para educação, nem para a pedagogia. A Estilo escorre pelos dedos, pelas mãos... vai por terra, seca, evapora. A Estilo chuva-se. A Estilo poema-se. A Estilo musica-se. A Estilo pincela-se. A Estilo palavra-se.
A Estilo se veste de infâncias, bufona-se num devenir babélico. E, assim, os dias passam... e isso que chamamos de Estilo se entrega ao fora, ao hoje... sempre. Dá-se a conhecer a cada dia, num gesto generoso de entrega. De tanto se entregar... desfez-se.
E
X-
T

I

L

O...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

RE-COMEÇOS

POR MARCELO CUNHA BUENO
Esse texto foi escrito (e sentido) para receber os professores e professoras da Estilo no primeiro dia de aula desse novo ano...

Pensar nesse espaço entre... entre os atos que nos fizeram chegar até aqui.
Para chegarmos a esse ponto, precisamos de tempo, de espaço fora do espaço. Esvaziar os espaços cheios preenchidos e saturados ao longo de um longo ano. Ruptura. Todo começo é uma espécie de ruptura. Pensar é sempre romper. É sempre dar-se a algo mesmo-diferente. Pensar é habitar dobras. Entrecaminhos que se potencializam quando favorecem colisões. Dobrar-se é se romper. Romper é desafiar um tempo. Romper é colidir o tempo passado, o presente, o futuro. O tempo é uma dobra. O começo é sempre mais uma dobra.
A criança olha o começo sempre de forma diferente... sem aquela sensação do “mais uma vez”. É um “mais uma vez” renovado pela sensação de que sempre se pode mais, sempre se pode querer mais.
Talvez não seja nem um querer, mas um precisar mais uma vez, de um começo. Um espaço que afirma qualquer possibilidade. Qualquer. O que me faz precisar chegar aqui? O que me faz precisar desse emaranhado de discursos, quereres, vontades, desejos, ideias e precisares?
Perguntas que nos movem. Quais as palavras que escolhemos para nos perguntar dia após dia o que representa estar nesse lugar Escola? Quais são as palavras que achamos que nos diferenciam daqueles que não as têm em palavras?
Aqueles que palavreamos em crianças nos perguntam a todo instante: o que querem ver? O que enxergam em mim? Qual a sua porção naquilo que sou? Criança é convite! Um convite generoso para um olhar. Um olhar convidativo... rodopiante! Entre o dentro e o fora, o interno e o externo. Um convite que olha para além do “eu”. Um convite para ser espectro, desimagem, desforma, desfoco.
Nesse sentido, se aceitarmos o convite, somos todos esse emaranhado de gente, essa multidão de corpos... que só se encontrariam quando perguntássemos por ele, no outro. Perguntar é acontecimento. Acontecimento que mistura palavras, desejos, saberes, ignorâncias, vontade de ter, ser e habitar outros. Perguntar é educar... livre de processos de ensino e aprendizagens... temos ensinagens como condição desse jogo que alguns chamam de educação... aqui, podemos chamar de aventura!
Conquista. Um “mais uma vez” que pergunta, indaga por uma existência afirmativa, infinita, potente, geradora de novos mundos. Mundos compostos por partículas poéticas dos olhares, sabores, desejos que compõem infâncias.
Um olhar que inventa uma língua, uma língua que inventa um aqui agora infantil. Infância que pergunta sempre pelo jogo. O jogo de esconder segredos desse viver uma e outra vez... de ser, uma e outra vez.
A escola pode ser um convite. Educar é convidar o outro para a renovação, um começo de um começo. Aqui, tentamos fazer uma festa no salão de festas de babel. Vir para esse espaço e perguntar o que te convida, o que nos convida a dançar esse baile perfumado de infâncias. Qual o sentido, se é que há algum ou que devamos pensar assim, em fazer dos dias, “todos os dias”, 200 dias deles. O que me chama? Com que palavras me chama? Como atravesso esse convite?
Pensar também nos nossos chamados, nossos convites, no “dar a convidar alguém”, conceitos, coisas. Como convido? Quem escolho? Por que escolho? Será um convite que...
Multiplica? Quando, de que forma, com que finalidade?
Que ignora? Às custas de quem, do quem?
Que esquece? E o que potencializo? O que afirmo?
Que des-usa? Para inverter, para confrontar, para jogar.
Que escolhe? Para fragmentar, ou para multiplicar?
Escolher é se jogar num abismo. A criança é um labirinto desajustado. É o que nos faz perder o foco quando temos de andar em linha reta, encaixar chaves em portas, equilibrar-se numa perna só. Labirinto girador, gozador de uma ordem linear de uma neurociência da consciência da realidade desse mundo.
Labirinto é jogo. É um convite com um mapa desajustado. Jogo de esconder e se perder. Jogo de desfocar o torto do caleidoscópio. Jogo infantil que entorta pernas, rodopia pés, enlaça mãos.
Infância é jogo, sem foco, desfocada, textura cinzenta e embaçada para os olhos adultos. Um labirinto.
Mais um ano... para alguns – e que sejam bem-vindos –, o novo, o incerto, o potente em possibilidades, o repleto de expectativas... para outros – sejam bem-vindos também –, o tudo novo de novo, o mais uma vez, o mapa certeiro, a rota delineada... para alguns, a queda, o cair lentamente, a falta de ar, o coração na mão, a inconsciência, o espatifar-se... e, então... uma mão, um olhar, a generosidade de se sentir cuidado, junto, sempre... todos os dias, 200 deles... mais uma vez! Para esses, não há lugar de bem para vindar... só isso que deixamos escapar... isso ao que insistimos em educar... um eterno e mesmo convite para bailarmos entre príncipes e princesas, polícias e ladrões, gatos e cachorros, mamãe e papai, peixes, navegadores, cidades, locomotivas, chaplins, grafites, águas, pés e orixás.