quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

REPETIR PARA FICAR DIFERENTE, OU REPETIR PARA PUNIR?

Por Marcelo Cunha Bueno

Aproximamo-nos de uma época difícil para alguns estudantes, algumas famílias e professores.
Uma época de fechamentos, recuperações, avaliações, conversas e decisões. Passar de ano, ou repetir de ano. Sugiro que façamos uma reflexão que deveria ser chave na hora de se pensar quem vai e quem fica no ano.
Avaliar sempre foi um imbróglio para a escola. Atribuir notas e conceitos, mais ainda. Isso porque, em linhas gerais, o que se pretendia fazer era determinar um lugar para o estudante dentro de um conteúdo específico, ou do que entendemos (mesmo que erroneamente, por aprendizagem). O que se queria era mapear as suas respostas, encontrando resultados que possibilitassem identificar como se aprende. O estudante deixava de existir, com suas relações, conexões e costuras, para dar vida àquele que identificava e correspondia como certo o que era ensinado. O estudante reagente. Nascia o bom aluno, que reage corretamente aos conteúdos, reproduzindo-os na hora certa, da forma pré-determinada, e o mal aluno, que nem reagia, nem correspondia corretamente ao que se espera da condição de aluno.
Dessa forma, criava-se aquele que não sabia para justificar a explicação do mestre. Para justificar a presença do juiz do saber, o professor. A partir dessa lógica reagente, pensa-se avaliação. Avaliação como um dispositivo de justificação de conteúdos, de classificação binária daquele que sabe e daquele que não sabe. Nessa lógica, que ainda é dominante na educação, encontramo-nos com o eixo de nossa discussão... a “repetência”.
Avaliar é mais do que atribuir conceitos e mapear o estudante. Avaliar é abrir espaços para novos planejamentos, novas intervenções, novas invenções. Todos os dias! É uma forma generosa de se pensar no outro, em si, em nós-outros! É demonstrar confiança, dar voz ao outro, criar metáforas com o que se ensina e com o que se aprende. Avaliar é estabelecer um contrato de parceria entre professor e estudante. É fazer do professor o responsável pelos afetos do estudante. É positivar relações.
Nesse sentido, como educador, penso avaliação como uma possibilidade de aproximação sensível ao estudante. Uma possibilidade que permite ao estudante se colocar, redefinir trajetos e intervenções. Uma possibilidade única do professor repensar as suas ações, os seus planejamentos, o seu olhar atento às singularidades. Não se deve avaliar estabelecendo uma relação do estudante com “um todo”. Cada um está num território. Cada um se relaciona com conteúdos de uma forma. Por isso, sugiro que o professor pense mais a respeito do que quer ensinar. Pense em rede sobre os conteúdos marcados. Pense que, dentro de cada matéria, há uma infinidade de outros conceitos. Uns estruturais, outros conectivos, outros relacionais.
Quando pensamos em repetência a partir do ponto de que avaliar é reagir aos conteúdos, pensamos que repetir de ano é um castigo, um fracasso, uma punição. Mais uma vez, gostaria de convidá-los a pensar sob outra perspectiva. Uma perspectiva que leva em conta o que discutimos anteriormente para se fazer presente.
Sempre pensamos que existe uma separação entre ensino e aprendizagem. Costumo dizer que, afetivamente, não existe tal cisão... o que existe é uma união, uma “ensinagem”. Algo que se passa entre ensinar e aprender. O estudante precisa de espaço, precisa de tempo. Nessa ensinagem, o tempo funciona como um dispositivo de assimilação, ampliação, relação e acomodação. Acomodação como criação de um espaço mais silencioso, mais singular, mais vagaroso. Um tempo para permanências.
Muitas vezes, vejo crianças que não acompanham os “anos correspondentes”, justamente porque não tiveram tempo para acomodar o que aprenderam. Essa impossibilidade de se relacionar com o tempo, de acomodar suas ensinagens, é vista como incompetência. Lembremos que sempre que se fala de ensino por competências, criamos espaço para o surgimento do incompetente, ou seja, daquele que não aprende adequadamente.
Uma avaliação mais sensível permite ao professor ver, sentir o estudante em sua dimensão desejante, criativa. Permite ao professor pensar em novos caminhos, em novas propostas... em suas propostas, em como criará espaços de ensinagem para aquele estudante que não acomodou suas ensinagens.
É por isso que o professor deve ter em mente que, quando para para avaliar o estudante, para também para se avaliar. Ensinagem tem relação com um tempo. Tempo de se criar um espaço para saberes.
Na hora de decidir quem vai ou quem fica, precisa estar presente a responsabilidade do professor. Precisa estar presente a escola, que, desde sempre, orientou, planejou, apontou intervenções, caminhos e ações para familiares e estudantes. Acúmulo de notas não deve ser o único fator nessa decisão. Novamente, digo que é preciso colocar o fator temporal nessa história. É preciso perceber se a criança teve tempo para acomodar as ideias, sensações, afetos. Apesar de termos 200 dias letivos de aula, tempo exaustivo para todos, a escola corre contra o tempo, com datas marcadas para tudo. E, no fim, não dá tempo de nada, nem de aprender, nem de acomodar, nem de ampliar, nem de chegar no “fim do livro”, como muitos professores falam.
Repetir tem de ser para ficar diferente! Repetir não pode ser para alcançar algo comum, o mesmo. Não para ser o mesmo que os outros já conseguiram ser, mas para se afirmar como um outro! Como único, composto de espaços, tempos e afetos.

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