terça-feira, 3 de novembro de 2009

CURRÍCULO – ATRAVESSAMENTOS DO CORPO EM CULTURAS...

POR MARCELO CUNHA BUENO

Escola: Um corpo vibra nesse novo espaço!
Um corpo desejante, ainda não linguajado pelo mundo, repleto de entradas e saídas, que rodopia em suas descobertas.
Um corpo de alguém que ainda não tem domínios para a oralidade, mas que cria, produz novas e perspicazes formas de comunicação. Um corpo que cria ideogramas para significar o mundo, para si e para um outro. As representações de um choro, de um grito, de um sorriso, de um gesto, não se encerram no olhar do outro, mas se abrem para muitas vozes. Um choro pode significar tantas coisas! Choro como ideograma dessa linguagem que circula pela escola. Esse corpo-criança ensina, mostra outros acessos.
Um corpo que se entrega ao outro. Entrega-se às possibilidades de ser outro. Um outro que é objeto de desejo... no que faz, no que quer, no que tem. O outro é um pouco de mim... eu sou um pouco do outro. Costuras entre mim e outro começam a criar o que entendemos por coletividade.
Uma coletividade que é entendida como cartografia. Como mapa. O grupo como localizador das estruturas sociais... da linguagem, de culturas, de expressões, de sentimentos. Um mapa generoso que pede atravessamentos.
...Relações. Algo que não está fora e nem dentro... algo que é possibilidade daquilo que acontece entre nós... pessoas, objetos, espaços, ideias. Assim se dá o aprender e o ensinar. Relação é essa costura, isso que me liga ao mundo... isso que chamamos de educação.
Uma relação entre corpo e cultura que significa aquilo que entendemos como linguagens. Matemáticas, oralidade, escritas, culturas. Expressões de um espaço de atravessamento corporal. Um corpo atravessa conceitos, invade-os, transgride-os, significa-os, usa-os, recria-os, inventa-os. É nessa dança que crescemos.
A trama corporal-relacional, a educação, faz com que entendamos esse processo de escolarização de forma mais leve, mais suave.
Uma trama-educacional que torna possível conexões e relações mais amplas.
Ver a música como arte, ver a matemática como afeto, a língua como cultura, a cultura como um rascunho.
O corpo da criança na escola se relaciona por topografias. Regras, combinados, relações, definem uma topografia relacional que desenha para a criança a importância de estar num meio entre tantos.
Cultura entendida como geografia. Uma cultura que se apodera, que é apoderada, redefinida, indefinida. Uma cultura bailante pelos espaços e entendimentos, pelas percepções e produções. Uma cultura relacional que se importa com os corpos, que se transforma em corpos. Uma cultura que conta histórias, faz circular a música, faz movimentar a ponta do pincel, por expressões, por sentidos. A escola pode ser um espaço dessa geografia cultural.
Uma geografia infantil, não linguajada por ideias, não linguajadora de movimentos, mas experimentada porque se vive! Uma cultura silenciosamente expressiva. Que narra por gestos suas conexões coletivas.

CORP-O-RALIDADES

Um espaço de oralidades corporais se abre quando nos dispomos ao outro... aquele que nos cerca, que nos afeta. Um movimento de braços, mãos, pernas, dedos, compõe uma nova escrita. Uma escrita que registra o outro em nossa vida. Escrita-experiência que inverte o sentido que conhecemos da escrita... o de comunicar.
O outro não está ali com palavras... Está nos sentidos que atribuímos aos gestos, sons, passagens. O outro se torna atravessamento. Um atravessamento daquilo que vejo e sinto e daquilo que represento e entendo. O outro em movimento me alcança. Alcança-me e já não está mais lá fora... está dentro de mim, com meus sentidos e significados. Assim as crianças aprendem a ler... bem antes de existirem letras, números, essas formas codificadas de representar o mundo. Criança vê as nossas palavras nos gestos, no afeto do grupo em suas vidas. Criança entende o mundo como se as coisas que acontecessem nele e por ele fossem ideogramas. Ideogramas que representam seus sentimentos e funcionam em rede com outras ideias.
Um choro representa a saudade de casa, representa um querer interrompido, representa a fome, uma dor... um choro que não pode ser escrito, pois é composto de uma ideia, de uma representação, de uma relação com o mundo. Uma relação que não está fora, como a linguagem social, mas dentro... dentro de um esquema de sentidos pessoais... de um movimento generoso de negociação com o mundo. O ideograma da comunicação num espaço da não-linguagem, de uma infância. Uma infância como ideia, como modo de vida... um modo pessoal, experimental. Um modo que nos costura ao mundo. Socializar é costurar-se ao mundo. Essa costura acontece por meio desse ideograma comunicativo. Uma costura que pressupõe línguas, muitas vezes, numa forma babélica de se entender e expressar, de linhas pessoais, com vontades e quereres diferentes dos meus.
Nesse vai-e-vem entre pontos, atravessam-se conceitos, culturas. Deslocam-se os pontos marcados para compor novas tranças. Tranças que se entrelaçam numa sinfonia de texturas. Minhas, suas, nossas... de ninguém.
Dessa forma a criança aprende. Aprender é deslocar pontos. Deslocar sentidos ao mundo. Sentidos múltiplos, que se utilizam de não-palavras para existirem. Sentidos que precisam de corpos.
A criança aprende a falar com o corpo. Aprende o mundo por e com ele. Os adultos desaprenderam isso... essa incrível forma de atribuir sentido às coisas.
Corpo é relação... é a boca que não se pode calar. Corpo é linguagem... não a que se quer entender, mas a que quer escolher, quer vibrar, quer. Um corpo aprendiz é um corpo que não se contenta em estar num lugar apenas. Nesse espaço especialista, determinado, marcado.
Mas também há o anagrama escolar. Um anagrama que compõe o que é a língua, no corpo. Relações e atribuições de sentidos. A criança vê no adulto, em seu corpo, a expressão de culturas. Percebe que é lá que habita o registro daquilo que está no mundo e se cola em nossos corpos como pictogramas de uma linguagem analfabeta. O professor tem a marca de uma cultura. Seu desafio é se desprender da cultura escolar – marcada, determinada, especialista – e ampliar as entradas à cultura. Não é possível que continuemos usando as mesmas entradas, as mesmas portas, os mesmos acessos.
Precisamos criar fissuras, janelas, linhas de fuga, para que as crianças percebam outros registros culturais e componham a sua linguagem, componham uma linguagem mundana, cigana, nômade... que está realmente em movimento. Um registro para além daquilo que se prevê, que se espera.
Aprendemos nas surpresas e indeterminâncias das culturas. Elas nos deslocam, obrigando-nos a sermos estrangeiros, a nos abrirmos ao novo, às diferenças. A linguagem na criança é como um habitar estrangeiro. É como o movimento daquele que desbrava, que caminha sem direção, para todos os lados. O estrangeiro que quer conhecer, que quer ser assimilado, degustado pelo rizoma cultural que, até então, não o ocupava.
Uma infância que não quer falar, que quer ser sempre estrangeira, pois desbrava, cria mundos, cria línguas, cria culturas, costura-se ao outro, aos outros, às coisas, mas continua seu caminho de relações. Habitar o mundo é se relacionar. Habitar é relação, não é sedimentar-se. Habitar anagramas... como possibilidade de se multiplicar, de se reinventar.
Toda produção discursiva pretende montar um anagrama, um rizoma de ideias. A criança, em seu rizoma, consegue atravessar conceitos, frequentar possibilidades em suas transgressões linguísticas. Viver fatos não acontecidos, mas inventados, criar situações não verídicas, mas possíveis, criar amizades impossíveis, mas intensas... são as maneiras de frequentarmos esse anagrama linguístico, composto de tantas culturas.

CORPO-I-LÓGICO

Para pensar... Matemáticas.
Pensemos num corpo. Um corpo que chega à escola repleto de aberturas. Um corpo que não para de ser convidado a participar de novas conexões. Um corpo que dançava num baile da família e que agora é chamado para atravessar esse emaranhado entre família, cidade e escola.
Uma criança que reconhece o mundo porque o sente. Esse sentimento em devir, que sente de verdade, que sente profundamente, pois é no corpo que se entende sentimento. Uma criança não linguajada que se entrega ao mundo para viver e aprender com ele.
Assim nos acontece essa criança. Uma criança que, antes de ser criança, já é múltipla! Uma criança aberta para relações.
Relacionar é organizar.
Ir para além dos números... para além dos cálculos. Matemáticas como relação. Eu e meu grupo, um conjunto. Eu, o outro, a outra... uma soma. Os porquês e os serás... hipóteses. Meus quereres, meus poderes, neste e naquele grupo... problemas a serem resolvidos.
Não vemos números, vemos formas corporais.
Um corpo que aprende a se subtrair quando está no grupo. Subtração como processo de identificação... soma como processo de coletividade. Permanências. Permanências, quando me sinto parte do grupo, quando sinto que sei, aprendo, costuro. Variáveis. Variáveis, quando sei que o que sei pode ser modificado pela equação da coletividade, composta pelas diferenças que me compõem, que me agregam e somam no grupo.
Eu sem minha mãe, sem o corpo familiar, subtraio-me para me somar ao outro... que é x, desconhecido. Adaptação como equação.
Transições. Transições que criam diferentes possibilidades relacionais. Hipóteses. Hipóteses e transições que me contam de um mundo cultural, em movimento, talvez em transe.
Uma criança que não se contenta com o resultado, com o fim de suas ações. Quer inverter, quer verificar, quer tirar a prova real de cada situação experimentada.
Transgredir a regra é mais uma forma de frequentar um produto. Transgredir é afirmar. Transgredir é entender os resultados... mas é também perceber suas variáveis.
Matemáticas como um corpo-relacional. Matemáticas como espaço, como geografia. Uma geografia que localiza, desliza pelos planos, curvas, linhas, vértices, ângulos, pontos, sinais... Um espaço que é atravessamento... daquilo que desejo e quero, para aquilo que posso e alcanço. Assim fazem as crianças quando buscam algo. Desejam, calculam, medem, atravessam e alcançam.

CORP-O-RTUNIDADES

Gestos, olhares, vozes, músicas, sons, movimentos, sensações.
Um corpo dança na escola. Uma dança marota, rodopiante. Uma dança que sorri ao se encontrar com outros, com outros em nós, nós-outros. Uma dança que escapa da arquitetura escolarizante. Uma arquitetura que conforma a dança de um modo de relação com a vida, infância. Um modo de relação sem voz, sem língua e com todas as línguas. Um modo babélico de vida. Um modo de vida que nos convida a dançar. Um modo de vida que invade outras vidas vividas em nós.
Nômade, essa dança passeia por espaços. Atravessa a cidade, a família e usa a escola para sapatear seus passos leves e pesados. A escola é o espaço de atravessamento, espaço intermezzo, entre cultura-cidade, cultura-família. Atravessar significa abrir-se para o acontecimento de cada passo, cada movimento, cada sapatear!
Nunca sozinha, essa infância registra sua dança. Desenha seus movimentos na impermanência de seus gestos. Rabiscos invadem as linhas pedagógicas... um vai-e-vem indeterminado entre pontas que se costuram, tornando-se meios, novos espaços para se atravessar.
Uma dança-baile, quando se faz junto... quando nós somos outros. Um baile perfumado de movimentos generosos, de cuidado, de afeto.
Essa dança-baile é o que nos acontece todos os dias na escola. Um baile de máscaras, de mascarados, de ciganos e circenses.
Nesse baile, o currículo é música... sonoridades vibrantes dos corpos. E é justamente nesse baile que podemos pensar um currículo.
A escola costuma pensar currículo como movimento, mas, quando registra esse movimento, parece uma marcha, um corpo militar, uma corporação de saberes. Saberes marcados pelos discursos especialistas.
Se currículo é movimento, é dança, e sua música não está na marcação dos passos. Sua música está na dinâmica vibrante das culturas. Nas piruetas e rodopios entre os conceitos. Currículo é relação. Currículo se escreve na medida em que vivemos os espaços criados pela escola. Currículo é expressão. Uma expressão generosa daquilo que queremos compartilhar com os demais.
Currículo é afeto, são escolhas que querem coexistir com outras escolhas. Escolhas que compõem corpos. Escolhas que nos afetam, nos mobilizam, nos tiram do lugar, nos inquietam, nos fazem criar!
Pensar currículo na escola. Uma oportunidade da escola de se refazer, se reinventar... de mobilizar questões, pessoas, ações, pensamentos. Oportunidade para ampliar e costurar conceitos. Oportunidade para ir além das palavras objetivantes do currículo especialista.Uma corportunidade para redesenharmos nossos movimentos dentro da escola, ampliando gestos e criando novas topografias corpóreas.