quinta-feira, 9 de julho de 2009

EDUCAÇÃO PELO MIÚDO DA VIDA

Por Marcelo Cunha Bueno
Preocupa-me a relação entre educação infantil e fundamental. Com a mudança do fundamental de nove anos, sabemos que a educação infantil cedeu um ano para o fundamental. Deveria ser apenas a concessão de um ano, não de um modo de trabalhar, de se relacionar. Vejo que muitas escolas simplesmente se esqueceram daquele último ano do infantil (esta forma particular e muito afetiva de relação entre professores e estudantes) e adiantaram conteúdos e fazeres que eram típicos do fundamental. O que acontece? Acabam por matar um viver infantil − peculiar a esse tempo −, matam a potência do desenho, das artes como forma de se expressar e atribuir sentido ao mundo, dessa relação entre corpo e oralidade, tão forte no infantil. Adiantam provas, testes, disciplinas, formalizações, quando a criança ainda está pensando em representar e entender o mundo por meio das brincadeiras, dos jogos, do miúdo.
Vejo cada vez mais como as pessoas falam sobre a infância (justo dela, que é um espaço da não linguagem, ou da afirmação de muitas línguas… a que dança, a que fala, a que canta, a que brinca). Falam dela e das necessidades que ela tem. Falam dela como algo que precisa ser combatido. Esse combate tem como armas as apostilas (as que robotizam, normalizam, categorizam e emburrecem os pequenos e grandes), os discursos de preparação para o mundo (aquela história de treinar para o mundo fora da escola, como se ela estivesse fora do mundo, à parte dele!), a alfabetização pelo método x, pela linha y (embate de editoras, mas, na verdade, quem está dentro da escola, sabe que ler e escrever vai para além dos métodos), os brincares pedagógicos (tão distantes de um brincar poético, esse que se brinca sem saber que se está brincando), uma avaliação seriada (preocupada mais com os acúmulos do que com as aberturas que o experimentar o crescimento pode oferecer). Também dão espaço às antecipações de conteúdos – que são responsáveis por crianças de 2 e 3 anos segurarem um lápis não para desenhar, mas para treinar letras cursivas, que conformam corpos de crianças da educação infantil num corpo de crianças do ensino fundamental… para não dizer ensino médio, pré-vestibular!
Por isso, digo: vamos aproveitar enquanto as crianças ainda cabem nos caixotes, dentro de pneus, são leves para balançar, ou aproveitam o tempo montando histórias!
Pensemos numa educação que se entende (e se desentende) como relação. Relação entre muitos, entre corpos, danças, culturas, histórias, espaços, possibilidades. Uma educação que se faz no hoje. Que aproveita o momento, que valoriza o presente. Importar-se com o aqui e com o agora é se atirar nessa caminhada da vida!
Gosto de pensar na imagem das crianças se importando com o miúdo da vida… com o caminho da formiga, com o tatu que se enrola, com o pássaro que lança voo, com a história antes de dormir, com os traços num papel, com um sorriso que consegue contar até 10, com o brilho nos olhos do nome recém-escrito, com um abraço apertado… Educação é essa música também! O mundo que queremos é esse… de verdade! Comecemos, então!

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