terça-feira, 12 de maio de 2009

ESCOLA: ENTRE AUSÊNCIAS E PERMANÊNCIAS, OU UMA ESCOLA SEVERINA


Por Marcelo Cunha Bueno

Outros chegam à escola. Uma escola que parece ser a mesma de sempre. Uma escola dotada de seus saberes e poderes. Repleta de dispositivos classificatórios. Repleta de ferramentas de exclusão e ordenação: avaliações, diagnósticos, processos, projetos, trabalhos, relatórios, prontuários. O mesmo sempre chega à escola.
Um mesmo que se repete infinitamente. Os mesmos que sempre brincam, pulam, correm, riem, atrapalham e são os mesmos bons e maus alunos de sempre. Mesmos alunos, mesmas crianças. Mesmos.
A escola já está repleta. Cheia. Constantemente cheia de escola. Sempre cheia dos mesmos. A história é sabida. Palavras especialistas frequentam a escola desde que os mesmos, de tanto cavar, começaram a tirar o deserto escondido a meio de tantos papéis, didáticas, métodos, docentes, famílias. Palavras especialistas que calam desertos. Palavras especialistas que atribuem nomes, padrões, sequências, editoriais... do mesmo, sempre. Um mesmo que se reinventa a partir do que já está posto e gasto. O mesmo como novidade. Assim caminha a pedagogia.
Uma pedagogia moderninha-sócio-construtivista-cognitivista. Uma pedagogia arrastada, enfadonha, mandona e entendiante. Prestadora de serviços da família moderna, das religiões repaginadas, do estado maior e da ciência dos neurônios.
O mesmo ganha nomes para continuar com o status de mesmo: hiperativo, disléxico, indisciplinado. Os dispositivos de manutenção do mesmo ganham um exército de gardenais, rivotris e outras drogas. O mesmo é forte, a escola é forte. Os fracos não têm vez.
Mas a escavação continua. É fato que há um deserto na escola. É fato que a escola é um deserto. É fato que, antes mesmo do deserto sair, a escola não será mais escola. Uma outra será. Será?
Para cavar esse agujero desértico, os habitantes deste lugar devem se entregar ao labirinto dos discursos. Discursos guardiões, porteiros que defendem suas entradas, sem saber que podem ser saídas também. A escavação começa na dúvida. Começa num frequentar o mesmo. Começa na dança que surpreende a marcha de todo dia na escola. A marcha da rotina, da grade curricular, dos dias letivos.
Uma dança disposta em passos leves, flutuantes. Uma dança-ciranda que descompassa o sabido, que inverte o conhecido com palmas e risos. Uma dança do esquecimento e do experimento. Uma dança que contamina o caminhar dos frequentadores de escola. Uma dança que se faz junto, sempre. Cada passo é um cavocar. Cada passo é a possibilidade de um cair, de abrir o solo, de se reconfigurar e compartilhar marcas com os demais.
Quem nos chama a dançar na escola? Não sabemos, mas sabemos quem nos chama para marchar.
Um alguém chega à escola. Chega chorando, chega devagar, chega pulsante. Nosso convite marchoso é o de calar o choro, explicá-lo, encurtar a experiência do choro, daquele que chora e daquele que escuta, sente. Esse alguém é definido como criança, como criança que chora, que chora porque está cansada, com sono, com fome, mal-acostumada. Vai passar, o riso virá. E, se não vier, o choro vira falta de riso, infelicidade, problema.
Choro como dispositivo de exclusão, como arma da exclusão. Uma exclusão que se explica como: todas as crianças choram quando chegam à escola, mas esse choro que persiste não é comum. Há algum problema. O choro vira identidade do mesmo. Os mesmos choros que choram o problema.
Escola como espaço de transgressão. Uma transgressão daquilo que se anuncia como esperado. Que se pré-vê. Que se vê antes de se dar a ver. Uma transgressão que garatuja uma linha de fuga, uma fissura no centro da pintura escolar. A transgressão como arma de combate à tolerância, às acomodações, às regras indiscutíveis, à moral docilizante de uma escola que acredita que sua base, sua estrutura, é a verdade.
A escola gosta e quer combater aquele que transgride. Costura-se a micropenalidades para construir sua etiqueta. Pune o corpo, as diferenças, a cultura, com suas próprias invenções discursivas. Homenageia a todo instante o normal, o feliz, o bem-comportado, o certo, o devoto. Com seus dispositivos de controle, dispositivos antifuga: avaliação, rotina, espaço, distribuição de tempos, atividades, inclusões.
Trangressões que implodem a aura da inclusão, que nos fazem questionar o significado da pergunta pelo outro.
Com Skliar e com os personagens, ou habitantes da geografia da transgressão, podemos dizer que a inclusão é um tipo de reforma, assim como a educação. Uma reforma que busca romper a identidade da diferença, transformando-a em outro.
Nesse sentido, a inclusão é mais um caso para a geografia do que para as especializações médico-pedagógicas.
O outro, nessa geografia, contamina os idênticos por metástases, como diz aquele Skliar, não como metamorfoses. O outro como metáfora da doença da identidade.
Quem é aquele? O objeto de nosso pensamento, ou um objeto que existe por que se vê? Objeto-outro que é olhado, ou coisa-ausência que se "acega" para se encontrar? Perguntamos pelo outro, ou ao outro?
Mas, e se ele não estivesse lá? E se não houvesse espaço para ele? Se não houvesse espaços para nós? Nós e eles efêmeros, sem posições, só composições, coexistências.
Perguntar sobre inclusão é cartografar esse espaço fincado em educação. Perguntar sobre inclusão é localizar os espaços marcados que nos capturam cada vez que paramos para discutir as indeterminâncias, as efemeridades, as diferenças, a partir do olhar e da crença de que o outro está ali, realmente lá! Ele não está, nem esse que escreve, nem este que lê. Sabemos disso?
Severino entrou na escola. Tinha 7 anos. A mãe já havia falado que ele frequentara outra escola desde seus 3 anos. Neurologistas, psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e uma infinidade de gente disposta a reinventar uma condição de ser Severino. Nenhuma escola o aceitava. Já estava com idade para ingressar no Ensino Fundamental. As escolas davam a mesma justificativa após “avaliar” Severino: sem vagas.
Sem vagas significa sem espaço. Sem uma geografia. Escola é geografia. Uma geografia que inclui para acomodar num meio que se diz social. Para Severino, não há social possível. Ele não fala, não escuta, não entende... é negação, não-afirmação do normal. Severino é geografia da transgressão.
Severino foi centro de mesa em reuniões. Para falar dele, era necessário falar antes de sua identidade de excluído, pela afirmação da inclusão. O falatório da inclusão conforma Severino. Conforma sua família e conforta professores.[1]
Severino encontrou uma escola. Uma escola que aceitou a sua dança e se propôs a dançar com ele. Uma dança que perfurou imensos e irreparáveis agujeros. Tocas profundas que invertem os caminhos de qualquer currículo educacional.
Severino grita, ri, chora, bate, canta... Sempre com intensidades repletas de sentido. Severino inventa uma escola. A escola, que antes se achava ilha deserta, está repleta de suas intensidades, está entregue às invasões bárbaras propostas pelo doce bárbaro. A queda do império pedagógico proposta pela presença de Severino traz à escola a possibilidade de criar outras geografias para educação.
Severino deixa de ser Severino... para coexistir numa educação, numa escola. Sevrino é geografia.
Geografia por rizomas. Pequenas raízes que se entrecruzam criando um espaço trans. Transescola. Um espaço que se multiplica nos terrenos mais improváveis. Um baile de ideias que se conectam para criarem novas e múltiplas possibilidades de conexões. Dançantes, as ideias circulam por espaços marcados, por palavras exatas e renovam, arejam aquilo que é tido como único, como verdade. Severino dança em ideias. Esse que nos surpreende, que desloca os nossos saberes sobre o que se anuncia ser uma criança. Criança, aquele que ainda não foi linguajado, ensina que não existe uma criança...
S

E
V

E
R
I
N

O.

[1] Não acho que a discussão sobre o tema não seja pertinente, principalmente quando temos a desconfiança de que algo passa, atravessa esse espaço de inclusão... são linhas, fissuras, rachaduras, bem sabemos. Acho uma tentativa boa... mas perigosa, pois, a cada aproximação com a quebra, a busca pela resposta fica mais ávida, superficializando, com as determinações sobre sujeito, personalidade, psique, as possibilidades cartográficas de habitação de coletivos. Afinal, o problema do outro é quem lhe chama de outro. Se ele não estivesse lá, eu não estaria, ele não importaria. Não são eles, somos nós... Os que falam, os que ditam, os que param para pensar, os que acreditam nos outros.

Marcelo Cunha Bueno

Um comentário:

  1. Estou por aqui / aí... De vez em quando venho habitar o que você escreve. Esse, especialmente me tocou. Hoje. Saudades dos encontros (filosóficos?)de outros tempos. Beijos,
    Dani
    em tempo: estou ensaiando um blog. preciso de dicas!

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