sexta-feira, 6 de março de 2009

LIÇÃO DE CASA: UMA LIÇÃO PARA A ESCOLA

Muitas escolas e muitas famílias propõem um debate bastante pertinente e que ocupa uma grande parte da rotina escolar: a lição de casa.
Lição de casa sempre foi um elemento de discórdia entre professores e estudantes e familiares e escola. Pesa sobre a lição de casa o estigma de roubarem momentos livres de brincadeiras de meninos e meninas, de obrigarem pais e mães de esforçarem-se no difícil intento da educação de seus filhos e de poupar a escola de ensinar conteúdos.
Peço que façam um exercício para problematizar essa questão para além das lembranças e estigmas que a mesma carrega. Vamos pensar de uma outra forma, mais formativa. Quando me refiro a formação, não me limito somente a falar dos estudantes, mas de professores e de familiares ou parentes que realizam ou ajudam seus filhos a realizarem tais lições.
Lição de casa é um instrumento fundamental para a escola e que, de forma alguma, deve deixar de existir na rotina diária dos estudantes. É preciso deixar claro alguns pontos importantes: lição de casa não é exercício de “recognição”, ou seja, de reconhecimento; não é cópia de livro didático, de internet, de enciclopédia; não é passatempo, não é um elemento que cria obstáculos para a felicidade do final de semana; não é obstrutor da infância; não é preguiça do professor e, muito menos, atividade compensatória, por falta de tempo ou castigo.
Em oposição a essas características, aponto que o verdadeiro objetivo das lições de casa é a formação de um estudante. Entenda que esse vai além da escola, ou apesar dela. Estudante é aquele que associa, relaciona, produz, cria e experimenta o conhecimento de forma sensível. Aquele que, no teatro, lembra-se do livro; que, no livro, pensa no cinema; no cinema, pensa nos amigos... multiplica as suas perspectivas de aprendizagem. Lição de casa é um exercício de formação, de multiplicação de conhecimentos.
Conhecimentos estão em todas as partes. Não somente em internet, em enciclopédias ou em dicionários. Estamos acostumados e nos sentimos seguros com as respostas exatas, prontas. Achamos que, ao escrevê-las, conseguimos captar a sua intenção e, ainda, colocar o nosso entendimento. Isso não é aprender! Engana-se aquele que acha que, apenas resumindo, produziu algo. Em casa, sem ajuda do professor, que não pode ser confundido com livros, meninos e meninas encontram-se diante de um grande desafio. Não é fácil encontrar as próprias palavras!
Lição de casa tem de ser uma responsabilidade, primeiramente, do estudante. Ele deve se organizar e estabelecer quais os melhores horários e dias para fazê-la e entregar no dia combinado com o professor. Mas a responsabilidade também é dos pais e mães.
Educar os filhos é muito mais do que ensinar bons modos, é também fazer parte da vida escolar deles, inclusive ensinando-os o que não aprenderam na escola. Portanto, familiares devem ajudar seus filhos a pesquisarem, a escreverem textos, a se organizarem em suas obrigações e a ampliarem seus repertórios para além do que foi pedido ou para além dos materiais utilizados.
Professores devem entender que lição de casa é um exercício de formação, de estudo para eles também. Professor, quando planeja uma lição, deve pensar em provocações, desafios que vão além do que pode estar descrito em algum lugar. Devem estudar os conteúdos para traspassá-los. Lição de casa não pode ser a sua apresentação. Lição serve para sintetizar, ampliar as discussões pontuais sobre os conteúdos estudados em sala de aula. O professor deve se preocupar com esses objetivos ao passar lições. Seria impossível limitar o ensino somente à lição de casa. Garantir conteúdos é obrigação da escola.
A escola acabou por assumir e se conformar com um papel limitador: só dizem respeito à escola coisas conversadas na mesma, durante a semana. Estudante leva a escola para onde vai, e traz a sua vida para a escola. Fim de semana é também para estudar, para pensar.
Fugindo da visão de que a escola prepara para a vida, escolhas fazem parte da vida, e com escola não é diferente. Quando se escolhe assistir Big Brother ao invés de ler um livro, conversar no Orkut ao invés de ir ao cinema, estamos fazendo escolhas. Fazer lição aos sábados não é o fim do mundo quando há uma organização prévia, quando se encara isso como um dever e responsabilidade dos meninos e meninas.
Vejam, as lições podem ficar mais ricas se ampliarmos a forma de registro ou síntese do conhecimento. Valoriza-se demasiadamente a escrita em detrimento de outras formas de expressão. Percebemos isso, durante a Educação Infantil, quando as crianças começam a escrever e seus professores permitem que deixem de lado a representação gráfica, ou seja, os desenhos. Às vezes, encantamo-nos com uma imagem, uma fotografia, um quadro, poesia ou música. Isso pode dizer mais do que um texto. O importante é comunicar e pensar no conhecimento. Talvez fosse um bom exercício para professores e familiares investirem nesse tipo de lição de casa, mais parafraseado!
Permitindo essa multiplicidade de respostas, podemos ver e provocar um debate interessante a respeito das diferentes formas como estabelecemos relações com o que aprendemos. A lição acaba se tornando um recurso importante para avaliarmos com os estudantes as formas de representação.
Na minha escola, a Estilo de Aprender, uma das professoras estudou com seu grupo de crianças com quatro anos algumas figuras da cultura popular brasileira (Boi Tatá, Negro d’água etc). Como uma boa contadora de histórias, apresentava cada uma delas ao grupo. Acabou confeccionando, com seus estudantes, bonecos de pano. Ao construírem cada um deles, relembravam sua história e, ao final, todos sabiam perfeitamente as histórias incríveis de cada boneco.
Sorteavam entre eles quem levaria o boneco para casa. Antes de levá-lo, a professora dava a seguinte instrução: “Passe para frente a sua história”. As crianças dormiam, liam, assistiam TV, comiam com ele, levavam-no a restaurantes e a parques. As famílias surpreendiam-se com as histórias! Quem vai dizer que isso não é lição de casa? Essas crianças, esses estudantes, começaram muito bem a relação com a lição de casa, até dormem com ela!
Marcelo Cunha Bueno

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