sexta-feira, 6 de março de 2009

ESCOLA É ESPAÇO DE FORMAÇÕES

Seria possível encarar formação como desconstrução, ao invés de promover estabilidade e segurança, desestabilizar e mexer com as bases dos professores? Não nos preocuparmos tanto com os receituários pedagógicos e nos abrirmos para outras perspectivas?
Atualmente, a idéia de formação de professores começa a deixar de lado a falsa “segurança” dos procedimentos corretos, oferecidos pelos “métodos de ensino, materiais curriculares, técnicas de organização da classe e manejo dos problemas de disciplina e técnicas de avaliação elaborados pelos especialistas” (CONTRERAS, 2002) e, portanto, pelo “especialista técnico”, e dá passagem a outras exigências que visam um outro professor.
Os documentos produzidos em educação, desde a década de 80 até atualmente, apontam para um outro profissional: autônomo, valorizado, inventivo, questionador e sensível. Essas mudanças são claras. As deficiências apontadas pelos professores nos dias de hoje não dizem respeito somente às questões salariais, mas também às formativas. Isso significa que temos professores e gestores preocupados com a formação continuada que lhes é oferecida.
Os espaços de formação deixaram de ser encarados como espaços de preparação instrumental de técnicas para a aplicação em sala de aula. A formação é vista como espaço de discussões, debates, trocas e aprendizado. Entretanto, vou além deste conceito, encarando formação como produção e reprodução de discursos, de conhecimentos e de cultura que criam sujeitos.
O meu trabalho como coordenador pedagógico investe em um professor que vá além das questões que tratam da reflexão/prática. Vejo que a escola deve se tornar um espaço efetivo de formação docente, praticado, principalmente, nos espaços de reunião de grupo ou de professores.
A escola atual deve se “esparramar” pelo mundo, ou seja, deve abandonar a idéia de que traduz o que acontece em seu exterior. A escola está no interior das relações sociais, no núcleo da crise ou do mal-estar de nossos tempos. Deve, portanto, assumir o papel formativo da comunidade na qual está inserida.
Na Escola Estilo de Aprender, criamos um Núcleo de Formação gratuito que atende professores da Rede Particular e Pública de São Paulo. Os cursos são ministrados pelos próprios professores da Escola: uma formação dentro de outra formação.
Essa possibilidade é única para os meus professores. Quero que, ao virem para a escola para trabalhar, pensem que não é apenas mais um serviço, e sim um ofício, imbuído de estudo. Estudar é condição primeira para aqueles que querem seguir essa profissão. Estudo é ampliação de repertório, é a associação de idéias e vivências com o que acontece no dia-a-dia, é a possibilidade de multiplicar o saber. Formar é multiplicar saberes.
Saberes móveis, nômades, andarilhos. Saberes que, a cada olhar e palavra, modificam-se, assumem outras formas e composições. Pedem, clamam por associações e costuras. Precisam do outro para existir e continuar nesse ciclo de produção e de reprodução de conhecimento.
Percebo que o grande desafio durante a formação de professores é fazer com que entendam que, mais importante do que ter anos de prática, é estudar. Teoria é fundamental. Ler e escrever é essencial. Uma de nossas marcas dentro do Núcleo de Formação é a carga de textos que exigimos dos participantes. É preciso apresentar diversos autores e pensadores, teorias e relatos para que enriqueçam a sua experiência de serem professores. Experiência entendida como o Professor Jorge Larrosa nos ensina, intransferível, pessoal, imensurável.
Considero que a formação acadêmica seja insuficiente para aqueles que querem ser professores. Primeiro, porque essa profissão não pode cessar no momento em que recebemos nossos canudos. Segundo, porque a “formação autônoma”, a escolha pessoal do que se quer aprofundar, é o que alimenta a nossa experiência enquanto professores.
Gerir a própria formação deve ser mais um elemento de estudo dentro dos espaços de formação e na nossa profissão. É importante que nos sintamos sempre desestabilizados, desafiados, sempre com o compromisso com a incerteza.
Por termos medo de nos entregar ao estudo, de ler um livro de letras miúdas, por não querermos nos perder, sofrer instabilidades, desconcertos e incertezas, surgiram diversos profetas que fazem sucesso dentro desse ramo lucrativo que é a educação. Prometem o certo, o seguro, aquilo que tem futuro.
Formação de qualidade tem de ser aquela que nos tira do eixo, mexe com conceitos antigos, faz com que nos desapeguemos de conhecimentos, provoque mais esquecimentos, fale o que ainda não sabemos e, principalmente, abra a possibilidade do devir.
Dentro da Escola, quem deve se responsabilizar pela formação de professores são os diretores e coordenadores. Professores precisam de orientação, precisam de formação, como os seus estudantes. São muitas funções e responsabilidades que lhes competem: estudantes, conteúdos, famílias, parceiros de trabalho, sem falar em planejamento, avaliação, registros e reuniões. Ações que exigem um pensar mais vagaroso, um olhar compartilhado e companheiro.
A Escola é o espaço para que isso aconteça, escola é espaço de formações!
Marcelo Cunha Bueno

Nenhum comentário:

Postar um comentário