sexta-feira, 6 de março de 2009

AVALIAÇÃO: UM OLHAR QUE PRODUZ SUJEITOS E SENTIDOS

Avaliação é uma palavra que causa arrepios em muitas escolas. Estudantes, professores e familiares sofrem ao ouvir que o período de avaliações está por perto. O que se quer constatar com as provas avaliativas?
Avaliação bimestral, oral, semanal, relâmpago, processual, auto-avaliação, seja qual for o nome que se dê para mais esse instrumento documentário, a avaliação possui o mesmo objetivo: o da verificação. Verificar se o aluno aprendeu, avançou, paralisou, conquistou ou superou.
Mas, para que avaliar? Avaliar para superar um estágio? Para avançar? Para progredir? Em que, especificamente? Como e para quem a escola quer que o estudante comunique o que aprendeu?
O processo avaliativo, tal como vivemos em nossa escolarização e como ainda é vivido em muitas escolas, é um processo de checagem de conhecimento, de diagnóstico, de manutenção das “altas” quase médicas dadas pelos resultados periódico-avaliativos.
Durante esse processo, aparecerem inúmeros alunos. Aqueles que sabem “8,0”, que sabem “E”, que são bons e aqueles que, com recuperação, passarão para outro estágio. A avaliação escolar fechada e diretiva é um instrumento parecido com os exames hospitalares. Separa-se o que se quer examinar, matérias ou órgãos; depois, prepara-se o tipo de exame específico e, por fim, aplica-se e avalia-se os resultados. Se necessário, medica-se, ou se dá alta ao “paciente”.
A avaliação, dentro do espaço escolar, deve dar um passo além dos modelos examinatórios propostos. É preciso multiplicar as perspectivas avaliativas.
Certo dia, escutei de um dos meus professores uma “pérola”: ela contava que, após uma conversa inflamada sobre um assunto pesquisado, pediu que seus estudantes fizessem um registro gráfico da discussão. Lendo as produções, decepcionou-se com as mesmas, pois esperava mais detalhes depois de tamanha discussão. Conversando comigo, percebemos o quanto precisamos de um registro escrito, que fique documentado em algum lugar. Não bastaria ela se contentar com o que foi dito, já que se surpreendeu com as problematizações trazidas pelas crianças? Essa percepção fez com que déssemos mais um passo na produção do tipo de avaliação que espero em minha escola.
Sabemos que a avaliação do estudante deve ser contínua e ampla, mas que também pode abrir a possibilidade de novas perspectivas. A avaliação deve estar preocupada em possibilitar expressões diversas. Deve ser um instrumental pessoal que sintetize, organize e expresse, por meio de diversas linguagens, as relações que cada um estabeleceu com o conhecimento.
Nós, professores, devemos acreditar e entender que seremos sempre incapazes de mapear exatamente o que o nosso estudante aprendeu sobre o assunto ou conteúdo estudado. Avaliar é possibilitar e atribuir sentido à comunicação.
O que acontece, na maioria das escolas e na própria concepção de avaliação, é que a mesma é sempre realizada ao fim de um percurso, de forma restritiva, recortada e valorizando apenas a escrita (no caso das provas) e a moral (no caso do processo confessionário da auto-avaliação). A avaliação procura “capturar” um determinado conhecimento do estudante sem levar em conta a forma como aquele conhecimento pode ter modificado seu pensamento ou como ele se associa a outros saberes.
Quem já não passou por momentos na infância em que foi obrigado a cumprir uma prova dos saberes acumulados durante um período e, justamente no dia, deu aquela dor de barriga? Pensando na dor, você se desconcentrou e esqueceu de conferir as contas. Conclusão: tirou zero.
Quando ampliamos os instrumentos avaliativos, possibilitamos que o estudante expresse as múltiplas associações que foram produzidas a partir de um conhecimento. Isso é formação. Isso é saber! Para formar, é preciso de um outro tipo de relação com o tempo. É necessário alargar e atribuir outro sentido ao tempo, tanto nas relações com o percurso de trabalho, quanto na relação estabelecida com os produtos do mesmo.
A avaliação vem para nos dizer: siga esse caminho, tome essas providências, mas, na verdade, o caminho já está traçado! Ampliando e produzindo diferentes e novas perspectivas, abrimos fissuras, escapes e linhas de fuga para que não nos aprisionemos em modelos antigos que limitam e barram as diversas possibilidades do saber.
Sem dúvida nenhuma a avaliação é fundamental na escola. Não para a manutenção de um aluno, com prazo de validade, aquele que existe enquanto durar a escola, mas para produzir um estudante, capaz de interagir, aprimorar, produzir, inventar e associar conhecimentos. Um sujeito que não se contente com a escola, mas sim que vá para além dela... ou, em alguns casos, apesar dela.
Marcelo Cunha Bueno

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