sexta-feira, 6 de março de 2009

SOBRE CHORORÔS E DESAFIOS... MAS BEM SOBRE OSSOS

Onde será que moram aqueles ossos que crescem sem percebermos? Aqueles ossinhos que crescem e mudam o nosso olhar, mudam a forma como encaramos o mundo. Ossos que estruturam outras partes do corpo... um osso-coração, um osso-sentimento, um osso-saudade, um osso-vontade de abraço.
Quando as crianças voltam de férias, os professores sempre dizem: “Nossa, como você cresceu!”. De fato, parece que as crianças escolhem as férias para crescerem seus ossos... os da perna, do braço... Mas é na escola que os ossos, aqueles que comentei no início deste texto, resolvem dar uma espichada!
Crescer não é fácil... às vezes, bem, quase sempre, dói.
Dói quando voltam das férias, feriados, ou de um final de semana gostoso junto à família, por exemplo. Dói tanto que choram! Um choro tão doído que dói no corpo dos pais e mães que têm de deixar seus filhos e filhas na escola. Então, depois que vão embora, essa dor continua... e as famílias começam a pensar em mil hipóteses para esse choro. Pensam se fizeram a escolha certa, se estão ausentes, se falta algo, se o professor cuida, se o filho ou a filha ainda gosta deles.
Percebo na cara dos familiares, dos mais velhos na escola até os mais novos, a insegurança quando a criança chora para entrar na escola. Já ela, que ficou na escola, encontra no colo de outro, no olhar de outro, no gesto de outro, algo que acalma esse crescer, esse caminho.
Para lidar com o choro, temos de nos desprender da idéia de sofrimento. Nem sempre sofremos quando choramos... Para as crianças, o choro pode significar muitas outras coisas.
Vejo alguns familiares se desesperarem quando a criança chora para entrar na escola. Qualquer educador espera que a criança, mais cedo ou mais tarde, mesmo a mais descolada da escola, vá chorar! Elas precisam elaborar frequentemente o que significa ir à escola, pois simboliza crescimento, portanto, desafio. Nem sempre as crianças estão a fim de encará-lo... Sabe o que fazem? Como expressam essa vontade? Chorando!
O choro não representa necessariamente algo que tenha acontecido, ou que não gosta daquela escola... O choro é a expressão possível de um montão de sentimentos que ainda não têm nome. Por isso, não adianta se desesperar! A criança quer escutar daqueles que ama que ela vai conseguir, que será difícil, mas vai superar seus desafios... E o melhor: que pode contar com outras pessoas para isso! Existe coisa mais tranqüilizadora para uma criança quando a mãe ou o pai a autoriza a se afetar por outro adulto? Quando os familiares dizem: “Você pode procurar o colo da professora, do professor...”?
Já presenciei muitas cenas de famílias que acabam induzindo a criança a contar uma história que explique o choro sem ao menos terem vivido aquilo. “Você está triste porque a mamãe está trabalhando demais? Porque a mamãe não te deu aquele brinquedo?”... A criança, sem saber que choro precisa ter explicação, diz que sim... para encerrar o assunto e ganhar logo de uma vez a atenção corporal do adulto.
O adulto precisa encorajar a criança. Precisa se mostrar seguro, precisa autorizar a criança a sentir o que sente, mas sem abrir mão do que está posto. Ir à escola, por exemplo, não dá para ser negociado. Insistir e jogar limpo: “Está difícil, mas você vai conseguir!”.
Brinco sempre com as famílias que se crescer fosse um jogo de percurso, as regras desse jogo seriam: a cada um passo para frente, três para trás. Isso significa que, para crescer, a criança precisa checar o caminho percorrido para se sentir à vontade e segura para ir adiante. Andar para frente, seguir o caminho, significa olhar para trás e entender o que significou cada passo dado. Chorar não é regredir... é crescer! E crescer é ter espaço. Só cresce quem conquista espaços. E aqueles ossinhos que crescem sem percebermos bem são os que nos ajudam a conquistar esses espaços! São eles que nos sustentam, nos erguem, nos acomodam, e nos levam pelos caminhos que escolhemos percorrer.
Marcelo Cunha Bueno

FALTA DE LIMITES? DE QUEM, CRIANÇAS OU ADULTOS?

Muitas famílias me procuram para conversar a respeito de limites e de uma tal de “agressividade” infantil. Trazem os mais diferentes relatos de espancamento, cusparadas, mordidas e empurrões. Falam dos escândalos em lugares públicos, em festas de crianças, na porta da escola... Sempre se perguntam se a criança tem algum problema, se esse comportamento acontece também no espaço escolar. Sempre trazem a mesma questão: como colocar limites? Como fazer para a criança obedecer e se tornar educada?
São dois pontos importantes e que estão ligados a dois aspectos: um de ordem conceitual, pois existe um modelo de criança esperado pelas famílias, portanto, uma concepção de infância, e outro, de ordem “prática”, que está relacionado ao conceitual, que dirá o que fazer nessas situações.
A primeira coisa que a escola pode fazer para ajudar as famílias é mostrar que é bem possível que o que se espera do filho ou da filha é demais para eles. É tentar fazer com que as famílias construam uma imagem do filho sem estar colada à imagem da criança ideal. Sai a pressão, a conformidade da conduta, entra a criança, colocada na família específica.
Uma vez feito isso, é muito importante que desfaçamos algumas idéias de autoridade. Autoridade não é uma relação construída sem respeito, sem integridade. Autoridade é firmeza, paciência e persistência nas palavras.
Muitas famílias outorgam às crianças poderes de adultos. Escolhem se vão viajar ou não, se vão sair à noite ou não, escolhem os próprios castigos e até se querem ir à escola. Criança não pode fazer isso. Não pode porque é função do responsável por ela. Isso não é criar uma relação democrática, entre iguais. Isso é colocar um peso que o corpo e a mente da criança não suportaria! Isso é deslocar o papel de pai e mãe para uma instância fora do que seria uma referência para as crianças. Outra coisa: pais e mães, e professores também, devem aprender o valor afetivo do “não”. Um não que acolhe, um não que oferece limites, um não que educa. É mais difícil para as crianças conviverem com o não do que com a ausência dele. Já vi diversas vezes mães e pais, depois de uma cena de escândalo de seus filhos, que não conseguiram o que queriam, voltarem atrás e dizerem: “Só dessa vez!”. Isso é ausência de autoridade.
Muitos familiares, para evitar cenas de birra em público, acabam cedendo às pressões dos filhos e filhas e, com isso, prestam um desserviço à educação dos mesmos. Depois de um tempo, de tomar tanto na cara, pais e mães perdem a paciência e partem para a autoridade que não queriam ter: revidam a desobediência com os mesmos tapas e gritos das crianças.
Bem, em escola, é bem comum ver aquelas crianças que batem mais, que resolvem seus conflitos de forma mais corporal, ou seja, com tapas e pontapés. Ou crianças que tentam, por meio de gritos e choros, conseguir o que querem. Isso não pode ser “uma coisa de criança” e simplesmente deixar acontecer, pois seria pensar a criança como aquele ideal infantil. Isso deve ser resolvido. Se ela sempre bate nos amigos, o professor deve fazer algo com ela. Sem castigos ou coisa do gênero. LIMITES! Sinto que muitas escolas e muitos professores têm medo de dizer não, de colocar limites também. Isso não pode acontecer. Se escola é um espaço repleto de regras, é repleto, portanto, de transgressões, então, a mesma deve se preparar para lidar com isso. De forma clara e direta, sem rodeios.
Clareza é a chave para o sucesso! Ser franco e direto alivia a criança da angústia das decisões tardias dos adultos. As crianças precisam de limites no momento que os pedem. Fica mais fácil para aprender, fica mais fácil para crescer. Colocar limites é fundamental para que construam um espaço, digamos, assim, geográfico das relações sociais.
À medida que as crianças crescem, percebo que as intervenções das famílias precisam ser repetidas diversas vezes. É isso mesmo, repetir até ficar diferente. O fato da criança voltar, vez ou outra, à mesma atitude, pode não significar que ela não aprendeu, ou não entendeu, mas sim que ainda precise checar algumas situações e ver como os pais e mães se colocam frente a elas e como as pessoas reagem quando age dessa forma. Não adianta ameaças e ceninhas, as crianças precisam de ação. O que pode, pode, o que não pode, não pode e pronto. Elas esperneiam, choram, mas todos sabem o fim, é preciso ser firme e ter paciência.
Criança gosta de repetir as coisas. Assiste ao mesmo filme diversas vezes, pede para contar a mesma história sempre, gosta de brincar das mesmas brincadeiras. Repetem para aprender, para elaborar e construir uma idéia de mundo. Muitos familiares dizem que já tentaram de tudo para fazer com que seus filhos ou filhas parem de bater, de falar palavrões, de dar pontapés. Perguntam-me qual é o problema... querem levá-los ao médico, fazer ressonância da cabeça. Digo que o problema é que tentaram de tudo... e não uma coisa apenas.
Não adianta fazer malabarismos na educação de crianças. É preciso ter firmeza nas palavras, fazer valer diante das situações. Colocar a regra e que tipo de intervenção irá acontecer quando ela for descumprida. A criança vai checar para ver se ela continua valendo, se o pai e a mãe realmente sabem o que fazem e dizem. Existe família que acha que isso é pouco caso, repetir a mesma bagunça... mas não é não, muito pelo contrário... é por fazer muito caso, é por dar muita importância, que a criança repete as cenas.
Na verdade, podemos dizer que a tal “agressividade infantil”, ou coisa que o valha, é, muitas vezes, um pedido de socorro. Um pedido pela presença do adulto, um pedido que deve ter começado lá atrás, desde cedo, e que as famílias não souberam ou não quiseram ler. É preciso também colocar limites nas ações dos adultos, pois eles são os únicos responsáveis pelas crianças que cuidam.
Quando aprendemos a ler as crianças e sempre colocamos as coisas nos lugares, conseguimos identificar melhor o que acontece realmente com elas, ou seja, quando é um pedido de socorro e quando é um ato violento. Por isso, pais e mães devem se aliar às escolas para entenderem e se formarem melhor quando o assunto é limites. Devem conversar bastante com professores para perceber quais comportamentos também fazem parte da vida da criança, pois, se na escola é tão diferente do que acontece em casa,... algo está dissonante!
Marcelo Cunha Bueno

SOBRE TRANSGRESSÕES E PENDÊNCIAS

Transgredir é afirmar! Essa possibilidade de ser e não ser, de entender e não entender... Esse espaço de indeterminâncias. Um espaço repleto de possibilidades de sentidos, significados e representações daquilo que vai se constituindo como certo e errado.
Uma transgressão vale mais do que uma obediência... pelo menos para aquilo que chamamos de entender as regras e combinados.
Estamos sempre à espreita de uma indisciplina, sempre à espera de um passo errado para fazermos valer a nossa força, o nosso poder. Já pensaram como os adultos se relacionam com as crianças de forma ressentida? Já pensaram que os adultos, depois de terem feitos milhares de combinados, explicando regras, impondo idéias, esperam que as crianças os obedeçam sem que ao menos testem os combinados? Vale pensar nisso.
Para entender uma regra, é preciso jogá-la nas variáveis de tempo e espaço. É preciso colocá-la em cheque, transgredi-la... E não é exatamente isso que a criança faz? O adulto, ao invés de dizer “meu caro, essa regra continua valendo mesmo nesse espaço, nessas condições climáticas e com essas pessoas”, ressente-se e educa seus infantes para um mundo repleto de ressentimentos, com um espírito pouco nobre, escravo dos excessos das condutas morais de um mundo que não espera e nem respeita o tempo que temos para resolvermos as nossas pendências.
Certa vez, em uma reunião de familiares, escutei uma mãe dizer que as crianças não têm tempo de resolverem as suas pendências. Resolver pendências significa assimilar idéias, entender posições e disposições do outro, perceber e fazer valer a idéia do coletivo. Fico pensando o quanto a escola também contribui para que esse tempo de resolver pendências aconteça. De fato, o excesso de obrigações, regras e rapidez nas respostas afastam a possibilidade das crianças e dos adultos experimentarem os acontecimentos de forma a fazer com que os mesmos nos transformem. Impomos diversas formas de se comportar, despejamos toneladas de conteúdos e impedimos que as crianças pensem a respeito. Não deixamos que as mesmas resolvam suas questões com eles... Internalizem, experimentem, transgridam... para decidirem como e se vão aproveitá-los. Sem tempo para resolverem as suas pendências, as crianças perdem a oportunidade de atribuir sentidos, de fazer valer a sua cultura e a sua forma de ver e de se relacionar com o mundo. Sem tempo para resolverem as suas pendências, as crianças não se aproximam da experiência, essa que dá música à vida...
Resolver pendências é deixar as crianças pensarem sobre o que lhes acontece e lhes tocam. Resolver pendências é fazer com que a criança experimente as variações de uma mesma regra, de um combinado. Resolver pendências é deixar um tempo correr. Nada é para ontem!

Muitas vezes, escuto de professores um discurso que cobra da criança uma postura que só é possível se a mesma se vestir de adulto. Não que haja uma forma de ser criança... mas há muitas de ser adultos. A criança, justamente por não ter tido tempo para resolver as suas pendências, dês-mente, des-diz, des-faz, des-compõe, des-constrói. Isso não significa que ela não é obediente, mas que está afirmando os nãos, transgredindo o sim... para significá-lo. As famílias cobram uma mudança radical depois de colocarem as regras. As crianças não funcionam assim. Precisam provar esse novo elemento antes de usá-lo... de dizer que o entendem.
Nesse sentido, a transgressão é a única forma de resolverem as suas pendências. Eu acredito que a escola, mais do que um espaço disciplinar, isso é verdade, é um espaço de transgressões. É a possibilidade da criança experimentar de forma mais arejada as relações com as outras crianças, com os adultos, com o espaço e com o mundo!
Uma transgressão que nada se parece com a bandidagem, vadiagem, como muitos podem pensar... Gostaria de ver um espaço de transgressão entendido como espaço de entendimento, de partilha, de coletividade e de criação. Espaço de afirmação daquilo que pretende ser nosso. Toda criação é um pouco de transgressão. Transgressão que faz escapar do previsto, que faz a regra se repensar, se recriar. E existe coisa mais generosa do que isso? Por uma transgressão generosa!
Fico pensando que, se nos livrarmos dessa pressão, dessa insistência pela obediência, pela regra, poderemos criar uma relação menos rigorosa... mais generosa, mais arejada, mais atenta e cuidadosa... Esse afeto que afeta, que dispõe uma relação verdadeira. Um professor que entende que uma criança está em uma outra relação com o tempo e com o espaço é um professor que educa de forma mais generosa. Que entende que educação é uma relação, não uma imposição. Um professor livre do ressentimento da educação do “deve ser assim”, “é assim que se faz”, abre caminhos para que as crianças vivam as dinâmicas infantis de forma mais linguajadora, mais brincante, dançante, musical, com tempo e espaço para resolverem as pendências que ficam no nosso caminho, no nosso aprendizado.
Transgredir não significa desobediência, desordem, sacanagem da criança... mas que ela está tentando entender... e precisa do adulto para dizer, uma e outra vez, que ela está lá, todos os dias... Quando o adulto dá broncas, irrita-se com a insistência de des-fazer os combinados, afasta-se da criança... e da regra, que só existe porque há espaços para transgressões. Isso não é uma ode à bagunça... mas um apelo para entendermos o que passa com uma criança quando desobedece o estabelecido.
As regras existem para serem vividas... e toda transgressão é a possibilidade de entendermos as regras. Nesse caminho de encontros e desencontros, podemos afirmar que educar é também uma forma de transgredir!
Marcelo Cunha Bueno

POR UM BRINCAR ANTIPEDAGÓGICO

Quando eu era pequeno, brincava com ossinhos do frango! Depois que me tornei professor, os ossinhos do frango se transformaram em giz de cera, tampa de canetinha, borracha... Cada um desses objetos adultos era um personagem inventado para colorir as manhãs e tardes de meus estudantes. Inventava histórias cheias de aventuras, em que a borracha era um terrível cientista que apagava as cores do mundo, o giz era um mágico que adorava inventar novos truques, o clips era uma roldana que, apoiada num barbante, deslizava pela sala de aula. Até hoje, meus estudantes ainda se lembram dessas histórias... Aqueles meninos e meninas, que hoje são enormes, sorriem para mim como aquelas crianças que assistiam às minhas histórias... Lembro-me de que, na sala de aula, esses materiais viviam sumindo, pois as crianças adoravam pegá-los e inventar histórias também! Havia espaço para os brinquedos plastificados, mas, quem dominava, eram os “brinquedos garatujas”, como costumo chamar: aqueles que parecem rabiscos, mas se tornam o que os seus olhos e imaginação querem ver! Era um “professor-brincador”!
Brincar é uma gostosura! Ao contrário do que muitos educadores dizem por aí, brincadeira não é trabalho. Brincadeira é brincadeira e ponto. Brincar na escola é uma delícia! Uma oportunidade fantástica para que a criança entre em contato com outros colegas e amplie seu repertório cultural e de jogos.
Adoro ver as crianças pequenas na escola! Gosto porque sinto ares poéticos nos espaços tão marcados pela geografia escolar. Elas transgridem qualquer regra do espaço. Fazem com que pensemos melhor nas utilidades que inventamos para as coisas.
Muitas escolas colocam a brincadeira em um lugar sério, de ciência. Elaborações de papéis, vivências de contextos sociais, elaboração de sentimentos e sensações... Por isso, pedagogizam esse momento com brincadeiras regradas, com horários e espaços marcados. A criança aprende a brincar seriamente, o professor ensina a aprender seriamente. Há gente que diz que brincadeira é “estímulo”, seguindo essa onda da brincadeira como “ciência do desenvolvimento da personalidade”. Inventam brinquedos educativos, como se houvesse algum brinquedo que não provocasse alguma ação educativa e cultural. Ninguém precisa do brinquedo repleto de cores, repleto de formas e propostas para aprender algo. Mas o mundo de hoje faz isso: inventa discursos apoiados em uma ciência médica para capturar as pessoas, nesse caso, pais, mães e educadores.
Essa concepção de estímulo é coisa para focas e leões do zoológico, para brinquedos de plástico, ou coisa que o valha. É coisa desse mundo cheio de contemporaneidades que nos confunde e nos faz acreditar que as coisas simples não têm valor. Havia uma criança na minha Escola que sempre chegava com brinquedos miudinhos ou pedacinhos de objetos que se transformavam em grandes companheiros de desafios e fantasias. Os melhores brinquedos não querem dizer nada com suas formas ou propostas, apenas existem na imaginação de cada um! Nenhuma criança precisa de brinquedos cheios de penduricalhos e de especialidades para ser feliz!
Aqui na Estilo de Aprender, a escola que dirijo, as crianças de dois anos brincam muito. No Quintal, na Quadra, com caixotes, tábuas, areia, vão à horta, dão comida aos bichos, brincam de bichinhos, de casinha, “artistam” nas folhas e pelas paredes, escutam música, conversam, cantam, dançam e nos ensinam a ver o mundo com olhares mais infantis... Isso é cultivar a infância como acontecimento, como algo que não está previsto e nem colocado em um lugar específico. Esse acontecimento não pode ser capturado pelos discursos da escola.
Brincar é transformar as posições que ocupamos, a de professor, a de mãe, a de pai. Brincar até sermos o que queremos ser... e mudar! Brincar para ler mundos, para inventá-los. Brincar porque é simplesmente bom demais!
Marcelo Cunha Bueno

PARA SIGNIFICAR A LEITURA E A ESCRITA

Lembro-me do filme lindíssimo de Walter Salles, “Abril despedaçado”, em que o menino lia seu livro de ponta-cabeça... Lembro-me também do poeta Manoel de Barros dizer que sua neta, ao ler o livro de ponta-cabeça, estava deslendo! Coisa linda!
Alfabetização me causa dois sentimentos. O primeiro é bem chato, já que se trata de uma luta. As escolas podem caminhar por muitas possibilidades no que diz respeito a alfabetização. Há um debate entre duas concepções de alfabetização que estão deixando familiares, professores e crianças totalmente perdidos. É uma luta por poder, por validade quase que científica que não ajuda em nada, pois sabemos que, ao final do caminho, o que importa é que as crianças leiam e escrevam, mas, principalmente, tenham acesso a livros, a bons livros!
O caminho da alfabetização começa com as crianças ainda pequenas. Nomes, placas, jornais, revistas e tudo o que tiver letras é importante para que entrem em contato com mais essa possibilidade de expressão e comunicação. Isso é fundamental, por exemplo, para que a criança perceba que sua escrita ou a escrita dos outros possuem alguma finalidade, para comunicar coisas... Se não tiver isso, provavelmente escreverá por obrigação, para prestar contas, e será incapaz de entender o próprio texto.
Mas também dentro desse caminho das letras, temos a “decifração” do código. Decifrar o código da língua é entender essa melodia das letras formando palavras e poesias...
Bem, para essa etapa, cada escola começa quando julgar melhor. Geralmente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade, no que antes chamávamos de pré e, hoje, é conhecido como primeiro ano do Ensino Fundamental.
Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... pois entramos em um outro mundo. Imaginem: as crianças acabaram de começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança da escrita. É muito duro para elas! Por isso, a escola deve ir com calma, procurando sempre individualizar a coisa. Não adianta fazer um plano de alfabetização para a sala. Não vai funcionar! Cada um aprende de uma forma, em um momento. O que não pode significar que a escola deva ficar esperando ter vontade ou esperar o trem das letras passar. A escola deve desafiar sempre e ajudar a criança a superar essas etapas. Isso é seriedade: singularizar e desafiar!
Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Leva um tempo do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos, escrever espelhado, de ponta-cabeça, com letras trocadas, faz parte da aquisição da escrita. Quem não se lembra de quando falava as palavras faltando letras, ou quando falava pato ao invés de prato? Pois é, com a escrita, acontece a mesma coisa! As escolas precisam se lembrar disso também! É muito fácil, diante das dificuldades de escrita e leitura das crianças, a escola dizer que há um problema de aprendizagem. Procuro enxergar as coisas como um problema de “ensinagem”, de ensino. Como sempre digo, é muito fácil colocar toda a responsabilidade na criança e na família. A escola está totalmente envolvida e é totalmente responsável também por caminhar por essa estrada.
Mas há um lado bom, contrário daquela sensação chata de alfabetização. Um lado de descobertas, de desafios, de re-apropriações dos espaços, de re-significações do mundo. A criança descobre e acessa um novo mundo. Dá nomes, inventa palavras, faz o outro ler suas invenções. Poetiza a escrita com suas letras invertidas e seus aglutinamentos... Diria que essa alfabetização se dá por trans-palavras.
Arriscar-se pelo universo da escrita é um desafio enorme. Significar sensações, emoções, idéias por palavras é sinal de que a criança quer ter o mundo para si. Quando é podada desse direito, com correções excessivas, com trocas absurdas (do tipo “se você não terminar de copiar, vai ficar sem lanche”), a criança deixa de tentar e passa a reagir à escrita... escrever por escrever. Gosto de ver as crianças tentando formar palavras, frases, tentando ler suas idéias. É muito gostoso para os professores participarem desse momento. Criança aprende a escrever quando as letras deixam de ter o peso das palavras que querem significar!!!
Conteúdo se ensina com conversas, com discussões, com outros e muitos registros que não precisam ser somente escritos. Saber ler e escrever tem relação também com interpretar, sentir, relacionar, ampliar o repertório e o mundo da escrita. Aprende-se a ler e a escrever quando a criança lê ou folheia um livro, quando a criança escuta uma história do professor, quando reconhece os nomes dos produtos em suas caixas e pacotes.
Ensinar a ler e a escrever, decifrar o código, é obrigação da escola. A família deve se interar da forma como a escola trabalha essas questões. Alfabetizar é um trabalho conjunto entre casa e escola. Escrever e ler é um caminho cultural, é produção e incorporação de culturas, não um processo de ordem científica... não nesse caso. Afinal, mais difícil do que produzir leituras e escritas culturais é desler o que as palavras querem dizer. Esse é o bom leitor e escritor, alguém que vá além do que dizem as palavras...
Marcelo Cunha Bueno

AVALIAÇÃO: UM OLHAR QUE PRODUZ SUJEITOS E SENTIDOS

Avaliação é uma palavra que causa arrepios em muitas escolas. Estudantes, professores e familiares sofrem ao ouvir que o período de avaliações está por perto. O que se quer constatar com as provas avaliativas?
Avaliação bimestral, oral, semanal, relâmpago, processual, auto-avaliação, seja qual for o nome que se dê para mais esse instrumento documentário, a avaliação possui o mesmo objetivo: o da verificação. Verificar se o aluno aprendeu, avançou, paralisou, conquistou ou superou.
Mas, para que avaliar? Avaliar para superar um estágio? Para avançar? Para progredir? Em que, especificamente? Como e para quem a escola quer que o estudante comunique o que aprendeu?
O processo avaliativo, tal como vivemos em nossa escolarização e como ainda é vivido em muitas escolas, é um processo de checagem de conhecimento, de diagnóstico, de manutenção das “altas” quase médicas dadas pelos resultados periódico-avaliativos.
Durante esse processo, aparecerem inúmeros alunos. Aqueles que sabem “8,0”, que sabem “E”, que são bons e aqueles que, com recuperação, passarão para outro estágio. A avaliação escolar fechada e diretiva é um instrumento parecido com os exames hospitalares. Separa-se o que se quer examinar, matérias ou órgãos; depois, prepara-se o tipo de exame específico e, por fim, aplica-se e avalia-se os resultados. Se necessário, medica-se, ou se dá alta ao “paciente”.
A avaliação, dentro do espaço escolar, deve dar um passo além dos modelos examinatórios propostos. É preciso multiplicar as perspectivas avaliativas.
Certo dia, escutei de um dos meus professores uma “pérola”: ela contava que, após uma conversa inflamada sobre um assunto pesquisado, pediu que seus estudantes fizessem um registro gráfico da discussão. Lendo as produções, decepcionou-se com as mesmas, pois esperava mais detalhes depois de tamanha discussão. Conversando comigo, percebemos o quanto precisamos de um registro escrito, que fique documentado em algum lugar. Não bastaria ela se contentar com o que foi dito, já que se surpreendeu com as problematizações trazidas pelas crianças? Essa percepção fez com que déssemos mais um passo na produção do tipo de avaliação que espero em minha escola.
Sabemos que a avaliação do estudante deve ser contínua e ampla, mas que também pode abrir a possibilidade de novas perspectivas. A avaliação deve estar preocupada em possibilitar expressões diversas. Deve ser um instrumental pessoal que sintetize, organize e expresse, por meio de diversas linguagens, as relações que cada um estabeleceu com o conhecimento.
Nós, professores, devemos acreditar e entender que seremos sempre incapazes de mapear exatamente o que o nosso estudante aprendeu sobre o assunto ou conteúdo estudado. Avaliar é possibilitar e atribuir sentido à comunicação.
O que acontece, na maioria das escolas e na própria concepção de avaliação, é que a mesma é sempre realizada ao fim de um percurso, de forma restritiva, recortada e valorizando apenas a escrita (no caso das provas) e a moral (no caso do processo confessionário da auto-avaliação). A avaliação procura “capturar” um determinado conhecimento do estudante sem levar em conta a forma como aquele conhecimento pode ter modificado seu pensamento ou como ele se associa a outros saberes.
Quem já não passou por momentos na infância em que foi obrigado a cumprir uma prova dos saberes acumulados durante um período e, justamente no dia, deu aquela dor de barriga? Pensando na dor, você se desconcentrou e esqueceu de conferir as contas. Conclusão: tirou zero.
Quando ampliamos os instrumentos avaliativos, possibilitamos que o estudante expresse as múltiplas associações que foram produzidas a partir de um conhecimento. Isso é formação. Isso é saber! Para formar, é preciso de um outro tipo de relação com o tempo. É necessário alargar e atribuir outro sentido ao tempo, tanto nas relações com o percurso de trabalho, quanto na relação estabelecida com os produtos do mesmo.
A avaliação vem para nos dizer: siga esse caminho, tome essas providências, mas, na verdade, o caminho já está traçado! Ampliando e produzindo diferentes e novas perspectivas, abrimos fissuras, escapes e linhas de fuga para que não nos aprisionemos em modelos antigos que limitam e barram as diversas possibilidades do saber.
Sem dúvida nenhuma a avaliação é fundamental na escola. Não para a manutenção de um aluno, com prazo de validade, aquele que existe enquanto durar a escola, mas para produzir um estudante, capaz de interagir, aprimorar, produzir, inventar e associar conhecimentos. Um sujeito que não se contente com a escola, mas sim que vá para além dela... ou, em alguns casos, apesar dela.
Marcelo Cunha Bueno

LIÇÃO DE CASA: UMA LIÇÃO PARA A ESCOLA

Muitas escolas e muitas famílias propõem um debate bastante pertinente e que ocupa uma grande parte da rotina escolar: a lição de casa.
Lição de casa sempre foi um elemento de discórdia entre professores e estudantes e familiares e escola. Pesa sobre a lição de casa o estigma de roubarem momentos livres de brincadeiras de meninos e meninas, de obrigarem pais e mães de esforçarem-se no difícil intento da educação de seus filhos e de poupar a escola de ensinar conteúdos.
Peço que façam um exercício para problematizar essa questão para além das lembranças e estigmas que a mesma carrega. Vamos pensar de uma outra forma, mais formativa. Quando me refiro a formação, não me limito somente a falar dos estudantes, mas de professores e de familiares ou parentes que realizam ou ajudam seus filhos a realizarem tais lições.
Lição de casa é um instrumento fundamental para a escola e que, de forma alguma, deve deixar de existir na rotina diária dos estudantes. É preciso deixar claro alguns pontos importantes: lição de casa não é exercício de “recognição”, ou seja, de reconhecimento; não é cópia de livro didático, de internet, de enciclopédia; não é passatempo, não é um elemento que cria obstáculos para a felicidade do final de semana; não é obstrutor da infância; não é preguiça do professor e, muito menos, atividade compensatória, por falta de tempo ou castigo.
Em oposição a essas características, aponto que o verdadeiro objetivo das lições de casa é a formação de um estudante. Entenda que esse vai além da escola, ou apesar dela. Estudante é aquele que associa, relaciona, produz, cria e experimenta o conhecimento de forma sensível. Aquele que, no teatro, lembra-se do livro; que, no livro, pensa no cinema; no cinema, pensa nos amigos... multiplica as suas perspectivas de aprendizagem. Lição de casa é um exercício de formação, de multiplicação de conhecimentos.
Conhecimentos estão em todas as partes. Não somente em internet, em enciclopédias ou em dicionários. Estamos acostumados e nos sentimos seguros com as respostas exatas, prontas. Achamos que, ao escrevê-las, conseguimos captar a sua intenção e, ainda, colocar o nosso entendimento. Isso não é aprender! Engana-se aquele que acha que, apenas resumindo, produziu algo. Em casa, sem ajuda do professor, que não pode ser confundido com livros, meninos e meninas encontram-se diante de um grande desafio. Não é fácil encontrar as próprias palavras!
Lição de casa tem de ser uma responsabilidade, primeiramente, do estudante. Ele deve se organizar e estabelecer quais os melhores horários e dias para fazê-la e entregar no dia combinado com o professor. Mas a responsabilidade também é dos pais e mães.
Educar os filhos é muito mais do que ensinar bons modos, é também fazer parte da vida escolar deles, inclusive ensinando-os o que não aprenderam na escola. Portanto, familiares devem ajudar seus filhos a pesquisarem, a escreverem textos, a se organizarem em suas obrigações e a ampliarem seus repertórios para além do que foi pedido ou para além dos materiais utilizados.
Professores devem entender que lição de casa é um exercício de formação, de estudo para eles também. Professor, quando planeja uma lição, deve pensar em provocações, desafios que vão além do que pode estar descrito em algum lugar. Devem estudar os conteúdos para traspassá-los. Lição de casa não pode ser a sua apresentação. Lição serve para sintetizar, ampliar as discussões pontuais sobre os conteúdos estudados em sala de aula. O professor deve se preocupar com esses objetivos ao passar lições. Seria impossível limitar o ensino somente à lição de casa. Garantir conteúdos é obrigação da escola.
A escola acabou por assumir e se conformar com um papel limitador: só dizem respeito à escola coisas conversadas na mesma, durante a semana. Estudante leva a escola para onde vai, e traz a sua vida para a escola. Fim de semana é também para estudar, para pensar.
Fugindo da visão de que a escola prepara para a vida, escolhas fazem parte da vida, e com escola não é diferente. Quando se escolhe assistir Big Brother ao invés de ler um livro, conversar no Orkut ao invés de ir ao cinema, estamos fazendo escolhas. Fazer lição aos sábados não é o fim do mundo quando há uma organização prévia, quando se encara isso como um dever e responsabilidade dos meninos e meninas.
Vejam, as lições podem ficar mais ricas se ampliarmos a forma de registro ou síntese do conhecimento. Valoriza-se demasiadamente a escrita em detrimento de outras formas de expressão. Percebemos isso, durante a Educação Infantil, quando as crianças começam a escrever e seus professores permitem que deixem de lado a representação gráfica, ou seja, os desenhos. Às vezes, encantamo-nos com uma imagem, uma fotografia, um quadro, poesia ou música. Isso pode dizer mais do que um texto. O importante é comunicar e pensar no conhecimento. Talvez fosse um bom exercício para professores e familiares investirem nesse tipo de lição de casa, mais parafraseado!
Permitindo essa multiplicidade de respostas, podemos ver e provocar um debate interessante a respeito das diferentes formas como estabelecemos relações com o que aprendemos. A lição acaba se tornando um recurso importante para avaliarmos com os estudantes as formas de representação.
Na minha escola, a Estilo de Aprender, uma das professoras estudou com seu grupo de crianças com quatro anos algumas figuras da cultura popular brasileira (Boi Tatá, Negro d’água etc). Como uma boa contadora de histórias, apresentava cada uma delas ao grupo. Acabou confeccionando, com seus estudantes, bonecos de pano. Ao construírem cada um deles, relembravam sua história e, ao final, todos sabiam perfeitamente as histórias incríveis de cada boneco.
Sorteavam entre eles quem levaria o boneco para casa. Antes de levá-lo, a professora dava a seguinte instrução: “Passe para frente a sua história”. As crianças dormiam, liam, assistiam TV, comiam com ele, levavam-no a restaurantes e a parques. As famílias surpreendiam-se com as histórias! Quem vai dizer que isso não é lição de casa? Essas crianças, esses estudantes, começaram muito bem a relação com a lição de casa, até dormem com ela!
Marcelo Cunha Bueno

UMA OUTRA ATMOSFERA EDUCACIONAL PARA O ENSINO FUNDAMENTAL

Podemos observar que as demandas das famílias e da comunidade de educação em geral apontam uma necessidade de haver uma escola que não rompa com o trabalho e com a forma de se relacionar, que é característica da escolarização inicial feita pela Educação Infantil. Uma relação mais próxima ao “cuidar do outro”, ao relacionar e combinar educação e cuidado de forma afetuosa. Tal combinação parece não ser mais um segredo de sucesso, pelo menos entre aqueles que falam de educação. Sucesso que está nos avanços e conquistas feitas pelas crianças e professores.
Sabe-se que a atenção desprendida nos primeiros anos de escolarização das crianças é fundamental para que as mesmas entendam as dinâmicas sociais e culturais envolvidas na esfera escolar. Um tempo mais vagaroso, mais ligado às atmosferas relacionais, às produções artísticas que representam o mundo, às formas mais leves e soltas de lidar com os problemas do dia-a-dia, compõe os motivos quase musicais da Educação Infantil. Mas isso parece durar pouco, agora, menos ainda...
Muitas escolas estão no intento de “apostilar” seus estudantes desde os primeiros anos de escolarização. Com um discurso de que seus seguidores terão mais sucesso e mais garantias no mundo contemporâneo, apostilam o pensamento de professores e de estudantes, prestando um desserviço à produção de diferentes culturas e às singularidades do universo social.
Não acredito em escolas que apostilam seus estudantes. Matam a possibilidade de múltiplas conexões conceituais feitas a partir de um conteúdo que, aparentemente, é fixo. Matam a possibilidade da criança pensar para além da escola, matam a possibilidade da criança se tornar efetivamente um estudante, que vai além das perguntas marcadas por quem escreveu o livro. Eu jamais confiaria em algo que serve tanto para mim, que moro em São Paulo, como para uma pessoa que mora na comunidade ribeirinha “x” não sei de onde. É muita arrogância e petulância dizer que o ensino é global! Cada um lê o mundo de forma diferente e merece ser respeitado por isso. Merece um estudo que ofereça a possibilidade de relacionar o que se conversa com aquilo que se vive. Além disso, quem escreve a apostila é alguém que recorta o mundo conforme julga conveniente... Isso é processo de alienação, é massificação cultural, é robotização, é silenciar a população, é emburrecer as relações (entre professores e estudantes, entre estudantes e estudantes e entre comunidade e escola). É matar as singularidades para criar pessoas que respondam adequadamente às perguntas dos chefes... É prestação de contas, e não educação!
Pensando em uma educação que leve em conta as diferentes formas com que os jovens se relacionam com o mundo, conforme o lugar que ocupam dentro de cada núcleo cultural, pensando em uma educação que abra novas possibilidades conceituais e compartilhe com o estudante a responsabilidade da produção de conhecimentos e de relacionar diferentes conceitos, alargando as posições especialistas impostas pelas disciplinas, tal como conhecemos, podemos pensar em um Ensino Fundamental outro...
Experimento, junto com familiares, estudantes e professores que apostam nessa possibilidade e perspectiva ampla de se encarar educação, uma forma diferente de fazer acontecer o Ensino Fundamental em seus anos iniciais. A Estilo de Aprender é uma Escola que vai além dos territórios marcados pelos discursos especialistas e das relações pautadas em concepções ultrapassadas em educação.
Vale dizer que entendo o espaço escolar e a educação como sendo um cuidado com o indivíduo que está sob nossa responsabilidade. Cuidar e educar caminham juntos dentro da Escola e estão implicados em todas as nossas reflexões pedagógicas sobre a construção do sujeito.
Cuidado começa na forma como organizamos os espaços, como formamos os professores, acolhemos as famílias, encaramos parcerias, conversamos com nossos estudantes, tratamos os assuntos e as questões de cada um e de como nos relacionamos com o tempo. A sala de aula é tempo e espaço.
Nosso objetivo é formar estudantes capazes de se implicarem com o conhecimento de maneira a produzirem outros saberes na relação entre o conteúdo aprendido e as suas vivências. Consideramos fundamental a relação entre as áreas de conhecimento estabelecidas pela Escola para que a produção de conhecimentos não se limite ou se engesse à sala de aula. A Escola passa a ter parceiros de trabalho. Seu espaço se amplia para espaços externos (casa, parques, museus, ruas etc.) e procuramos envolver outros sujeitos nesse caminho (familiares, amigos, vizinhos, artistas, personagens etc.). A educação ganha um sentido, ganha emoção, ganha envolvimento, cores e movimento.
A expressão é a fonte desse trabalho: gestos, sons, silêncios, palavras, letras, números, textos, abraços, risos, choros. São meios de conhecer e de se implicar com o mundo que nos cerca. Dessa forma, qualquer atividade desenvolvida na Escola não se restringe a uma ação isolada. Comunicação é afeto à medida que alguém é afetado por ela.
Uma forma de carinho, de demonstração de importância para o mundo, é a avaliação. Não a avaliação julgadora, punitiva, classificatória, mas aquela que abre possibilidade para novas perspectivas que vão além de provas, testes e exames. A Estilo de Aprender produz outros discursos avaliativos que permitem aos estudantes darem voz aos seus saberes e conquistas.
Pensar no dia-a-dia é uma forma de demonstrar afeto e cuidado. Uma maneira de demonstrar atenção e respeito pelo que o outro vive. É cuidar de um espaço de conhecimento do outro, que se dá justamente porque espaços e relações estão claras e definidas. A rotina do dia divide-se em momentos de discussão sobre diferentes conceitos, trabalhos com os conteúdos dos temas e produções. Os professores elaboram as atividades para seus Grupos conforme os temas discutidos. Produzem também atividades específicas para cada um de seus estudantes levando em conta as necessidades e gostos dos mesmos. Ao final dos períodos, os estudantes levam para casa todos os seus trabalhos para serem guardados como registro do que estudaram e como pegadas dos caminhos “andarilhados” por eles. Para cada disciplina, são produzidas atividades que visam fazer com que os estudantes consigam ler e interpretar os textos e produzir conhecimentos por meio de suas sínteses e explanações sobre o tema em questão. Visam também fazer com que cada um seja capaz de mobilizar seus amigos para ampliar suas hipóteses e desafiar o que aprendeu a respeito do que foi ensinado e quais os caminhos que escolheu para conectar diferentes conceitos.
Proponho e vivemos também uma relação diferente com o trabalho com as disciplinas. Na Estilo de Aprender, os conceitos são atravessados por múltiplos pontos de vista. Pluralizar as disciplinas significa abrir mão dos discursos especialistas que produzem lugares marcados e verdades absolutas e que impossibilitam as conexões entre diferentes campos. Tirar o tom de especialista que explica é multiplicar as perspectivas de se entender, conhecer, ampliar os conceitos. Por isso, História, Geografia, Português, Matemática, aqui, são Histórias, Geografias, Estruturas e Literaturas da Língua Portuguesa, Matemáticas e, ainda, Discursos Relacionais, Estudos Culturais, Expressões do corpo, das artes, da música...
Um conteúdo que, teoricamente, seria de História (aqui na Estilo, Histórias) pode ser contado pelo ponto de vista de um artista, de um cientista, de um jornalista, assim por diante. Nossa intenção é trabalhar os conteúdos de cada ano ampliando as possibilidades discursivas dos mesmos, formando redes de conhecimento. Redes discutidas, transformadas, costuradas numa teia de conceitos.
Todos os dias, o Grupo se reúne para discutir assuntos disparados pelas vivências de cada estudante, pelo que trouxe de casa, viu na televisão, escutou na rádio. São discussões que aproximam os estudantes das organizações sociais das quais fazem parte, promovendo uma postura questionadora e indagadora das posições marcadas pelas verdades. O professor procura mediar as situações, preservando sempre o direito da fala e do não querer falar. Diariamente, também após a leitura de algumas notícias, estudantes e professores escolhem temas importantes que marcam os acontecimentos na cidade, no país e no mundo. As notícias da semana acabam se tornando fonte para as discussões em grupo. Estudantes e professores são os responsáveis por alimentar essa atividade trazendo também dicas e recortes de notícias de casa.
A partir de assuntos propostos pelo professor, os estudantes se organizam em pequenos grupos de estudo e compõem diferentes registros sobre o que aprenderam, valendo-se de múltiplas linguagens. Vale ressaltar a importância desse espaço para a produção de variados registros para além do escrito. Os estudantes passam grande parte do tempo produzindo diferentes escritas, o que é fundamental para que consigam fazer o exercício de pensar para além delas. Um desafio que exige grande concentração e repertório. A pesquisa conta com a mediação dos professores, que ajudam seus estudantes a fazerem varreduras bibliográficas, organizarem textos, imagens, produzirem trabalhos em multimídia, fazerem uso de outras tecnologias, como a fotografia, vídeo e som.
Propomos também uma outra relação com a escrita, além daquela convencional, importante para a verificação dos usos das regras e conceitos de ortografia, pontuação e gramática. Uma escrita descolada da intenção de relatar, informar, produzir verdades. Uma escrita leve, solta, repleta de impressões dos olhares singulares de quem a produz. Uma escrita artista, que dança. Os estudantes possuem espaços para produzirem essa escrita tão importante e tão esquecida para quem quer se presentear com as próprias palavras. Ela pode acontecer em diferentes momentos, pois não quer prestar contas a ninguém. Sua “prática” é fundamental para produzirmos escritores liberados dos discursos homogeneizadores.
Essa proposta de educação pressupõe uma relação íntima do professor com a escola, com os estudantes, com a cultura. Pressupõe uma implicação com a escolha de ser professor e com a escolha de formar professores feita pela Escola.
Por um pensamento mais leve, mais amplo dos discursos pedagógico-curriculares, pensamos em uma outra atmosfera educacional. Pensamos em um currículo que trava uma guerra com o ideal enciclopédico (que domina há tanto tempo a forma como pensamos) e dá espaço para um Plano de imanência geo-educacional, que opera nos dissensos da multidão, da multiplicidade de povos e de variedades de matéria.

“Essa educação pressupõe saberes ambulantes que possibilitam a absorção e oferecimento de experiências, exposição de manejos, mostras de material, variações de matéria. A educação menor é uma prática desterritorializadora, algo em vias de se fazer, nunca sobre aquilo que já está dado, mas sempre com o que está para chegar. Por isso, envolve um certo mistério, uma complicação que é seu charme, pois beira o impossível, ao se constituir junto a um saber que ainda não é, mesmo que, para entrar em uma imagem do pensamento, de algum jeito, já tenha sido” (TADEU, T., CORAZZA, M. e ZORDAN, P., 2004).


Marcelo Cunha Bueno

POR UM PENSAR MAIS LEVE EM EDUCAÇÃO

Tenho a impressão de que, cada vez mais, a seriedade que habita as relações nos cansa! Sim, creio estarmos cansados de sermos sérios.
Os explicadores, aquele que parecem não abandonar o tom professoral-pastoral jamais, parecem se multiplicar nos dias que seguem. Impressionantemente, a cada esquina, virada de página, ou olhar para o lado, tem um agente explicador que se especializou em algo e faz questão de professorar, transformando beleza em seriedade.
Penso na seriedade que a escola assumiu ao longo de seu caminho. Quando falo de seriedade, me refiro à falta de leveza nas relações com seus estudantes, familiares, com o mundo. Na escola, tudo é capturado por palavras de ordem, palavras especialistas em formatar sentidos, vontades, experiências. Seriedade que anula o estudante, o professor, as famílias. Todos sérios, aturam a rotina exaustiva da escola nos seus intermináveis 200 dias letivos, que, com tantos feriados, impedem as crianças de respirar férias longe dela. Sérios, aguardamos o último dia chegar para nos livrarmos da seriedade e da cruz professoral que a verdade-explicadora-especialista nos coloca.
Pesado. O ar está pesado. Nas escolas, nas ruas, nos cinemas... Cada vez mais! Agora inventaram que cada cinema tem um público específico. Outro dia, escutei de uma pessoa que foi a um cinema e se sentiu um peixe fora d´água! Pode? O que nos acontece? NADA! Nada mais nos acontece! Nada mais parece nos afetar. Trabalhamos por vários motivos e nos esquecemos da leveza do gostar, do simples gostar.
Criança sabe das coisas. Quantas vezes já nos podaram quando apenas gostávamos das coisas “porque sim”? Diziam que isso não era resposta! Uma das coisas mais interessantes em escola é escutar a conversa das crianças. São leves em seus comentários, não devem satisfações sobre seus gostos e “achares”. Muitas vezes, em rodas de conversa, os assuntos vão de um lado ao outro, sem ordem, mas não desordenados, com outra costura. Conversa de criança é uma renda de histórias. Aprende-se muito com essas rendas! Rendas que criam uma cultura, discursos, provocam sentimentos e dão algumas cores para a seriedade das palavras exatas.
Falta leveza na escola! Falta contarmos mais sobre o que nos acontece e o que nos passa, como diz o professor Jorge Larrosa. Falta entendermos que a riqueza de uma relação dentro da escola está na disposição por nos abrirmos para os acontecimentos, que não têm compromisso com o “para sempre”, com o futuro. O aqui e o agora e a surpresa são parceiros da leveza. Falta o professor entender que sua paixão é fundamental para afetar o outro. Não é aquela paixão pela profissão, que emburrece e embrutece o estudo, mas a paixão por ser leve, por rendas, por histórias e por culturas.
Falta professores falarem mais sobre seus gostos também, falta serem menos imparciais, menos explicadores, menos donos das verdades dos outros. Falta deixarem de achar que os outros sempre se importam com suas palavras.
Falta falar mais sobre as inspirações e lugares que os livros nos arremessam, sobre a beleza do olhar para uma tela de cinema, sobre o silêncio que o coração escuta com a música, o pulsar do corpo dentro de uma sala de teatro, os suspiros constantes ao caminhar pelas artes, a emoção de rever amigos e deleitar-se em palavras carinhosas, sobre escutar o som do pôr-do-sol... Falta, simplesmente, gostarmos mais do presente! A vida é agora!
Falta-nos rir, gargalhar, chorar... Sem compromisso! Falta-nos intensidade nas relações, falta-nos um sentir mais poético para aquilo que fazemos. Falta aquela música de fundo!
Penso na escola... Lugar sério. Penso nos habitantes dela.... Sérios! Penso no que ela quer... Coisa séria! Aquela que deveria cultivar a arte do encontro se perde nos desencontros, na individuação, na competição. Dessa forma, afasta as pessoas com uma competitividade sem tamanho. Almeja pessoas sérias... Insensíveis, superficiais em sentimentos, racionais.
Pessoas que se importam com o mundo, de verdade, são pessoas intensas, que se emocionam com o pequeno, coisas pequenas. São elas as únicas capazes de transformar as nossas vidas, de agir pela transformação.
Onde se aprende isso? Com certeza não é na academia-faculdade, não é nos intermináveis cursos de especialização, não é em palestras-shows...
Experimento algo incrível em minha escola, a Estilo de Aprender. Uma formação que, desapegada desse valor professoral, desconectada do compromisso pelos acúmulos de profissionais competentes, cria um outro espaço formativo, um não discurso pedagógico. Quero antes, pessoas que se importem com pessoas. Pessoas que se importem com suas vidas, que gostem de viver o hoje!
Nas reuniões pedagógicas, não falamos de escola, mas lemos imagens, desenhamos palavras, degustamos idéias, pensamos leve, livre. Isso muda tudo! Tenho mais do que professores aqui! As crianças e as famílias têm mais do que professores.... Nós nos temos por inteiro.
Sem cortes, intensamente ganhamos nossos dias com a poesia de estarmos no meio de um turbilhão de transformações! Aqui, criamos novos espaços para discutirmos o que fazemos... Pensamos educação por outros caminhos. Pensamentos nômades da educação. Falta-nos o querer de nos perder em pensamentos para podermos nos encontrar nos outros, nos lugares, nos versos, na leveza da simplicidade.
Marcelo Cunha Bueno

POR UMA PEDAGOGIA INCENDIANTE OU INCENDIÁRIA

A Escola é um campo de batalhas, de lutas discursivas, de guerras pedagógicas. Não pode ser diferente! Um espaço rico geograficamente, onde múltiplos interesses travam confrontos formativos e desejantes por se transformarem em conhecimentos. Essa luta não fere ninguém, não pretende eliminar, aniquilar, apenas quer a desconstrução, a efetivação de novos espaços para conceitos, palavras. Ela quer ensinar a criança, o adulto a desaprender. Desaprendemos quando aquilo que sabíamos perde espaço para o novo. Escola é espaço de ruptura!
Penso naquelas escolas onde tudo é previsto, antecipado, onde não há espaços para as surpresas, para a novidade. O imprevisível, o campo do desconhecido, do incerto e inseguro é fortemente negado por muitas escolas. Devemos lembrar que, sem o espaço para o incerto, não há a menor possibilidade de nos abrirmos para a multiplicação de saberes. Talvez nos forçar a dizer mais “nãos” seria a solução: não ao programa, não aos projetos anuais, não ao cronograma que engessa, emperra e delimita o trabalho de professores e de seus estudantes. A segurança do conteúdo programático é falsa! Falsa porque não consegue controlar o nosso pensamento... que alça vôos. O programa assegura um mesmo discurso, sempre, mas não assegura um aprendizado, nunca!
Negar esses aspectos não é, em nenhuma instância, a defesa da bagunça, mas uma defesa pela escola livre de amarras antigas e ultrapassadas, apregoadas por pedagogias que não querem saber das diferenças, das singularidades, das multiplicidades. Afirmar que queremos liberdades de expressões é poder falar em diversas línguas que o imprevisto é bem-vindo, que a dor não se educa, que os problemas não estão nos outros e sim nas relações, que os conteúdos não precisam ser lineares, que não temos certeza de nada, nem podemos assegurar de como será o dia de amanhã para nossos estudantes. É tirar das costas um “peso histórico” que colocaram para a profissão de educadores!
A Escola é uma instituição em chamas! Diversos focos de incêndios podem ser notados em salas de aula, nas relações entre famílias e professores, professores e estudantes, currículo, discursos, etc. O dia-a-dia escolar é como um vento que propaga as labaredas, queimando a vegetação rasteira existente em cada espaço desse terreno. É por isso que é um espaço que tem vida própria, um espaço que precisa constantemente se compor e se decompor. O fogo que queima na Escola é fogo de paixão, aquela paixão que nos faz padecer, arder, que incomoda, enjoa, deixa sem fome... “amor em brasa”. Paixão que nos desloca, nos coloca em lugares nunca pisados ou sentidos.
A Escola e seus corpos devem se responsabilizar por causar incômodo em seus habitantes para que estes não deixem de querer encontrar rotas de fuga, escapes. Devem fazer com que nos embrenhemos nas labaredas presentes nas relações entre escola e famílias, incendiando as questões trazidas pelas mesmas com um discurso pedagógico (não pedagogizante) voltado às questões escolares.
Não devemos deixar esse fogo se apagar, mas sim colocar mais lenha na fogueira, jogar mais folhas secas, fazer o ar circular para deixar o fogo queimar... É urgente termos mais espaços de formação, de estudos dentro dos espaços escolares! Temos de incorporar o papel caloroso da formação para transformarmos chispas em calor formativo, em paixão!
Uma Pedagogia por Incêndios seria como um grito que se desloca no meio de tanta fumaça e nos faz pensar que, dentro da Escola, há efetivamente um discurso que não precisa de formas para existir, que não se encontra em um lugar definido, pois ecoa em várias direções e sentidos, e que não pretende nos guiar, apenas nos fazer presentes ao escutá-lo.
Marcelo Cunha Bueno

ESCOLA É ESPAÇO DE FORMAÇÕES

Seria possível encarar formação como desconstrução, ao invés de promover estabilidade e segurança, desestabilizar e mexer com as bases dos professores? Não nos preocuparmos tanto com os receituários pedagógicos e nos abrirmos para outras perspectivas?
Atualmente, a idéia de formação de professores começa a deixar de lado a falsa “segurança” dos procedimentos corretos, oferecidos pelos “métodos de ensino, materiais curriculares, técnicas de organização da classe e manejo dos problemas de disciplina e técnicas de avaliação elaborados pelos especialistas” (CONTRERAS, 2002) e, portanto, pelo “especialista técnico”, e dá passagem a outras exigências que visam um outro professor.
Os documentos produzidos em educação, desde a década de 80 até atualmente, apontam para um outro profissional: autônomo, valorizado, inventivo, questionador e sensível. Essas mudanças são claras. As deficiências apontadas pelos professores nos dias de hoje não dizem respeito somente às questões salariais, mas também às formativas. Isso significa que temos professores e gestores preocupados com a formação continuada que lhes é oferecida.
Os espaços de formação deixaram de ser encarados como espaços de preparação instrumental de técnicas para a aplicação em sala de aula. A formação é vista como espaço de discussões, debates, trocas e aprendizado. Entretanto, vou além deste conceito, encarando formação como produção e reprodução de discursos, de conhecimentos e de cultura que criam sujeitos.
O meu trabalho como coordenador pedagógico investe em um professor que vá além das questões que tratam da reflexão/prática. Vejo que a escola deve se tornar um espaço efetivo de formação docente, praticado, principalmente, nos espaços de reunião de grupo ou de professores.
A escola atual deve se “esparramar” pelo mundo, ou seja, deve abandonar a idéia de que traduz o que acontece em seu exterior. A escola está no interior das relações sociais, no núcleo da crise ou do mal-estar de nossos tempos. Deve, portanto, assumir o papel formativo da comunidade na qual está inserida.
Na Escola Estilo de Aprender, criamos um Núcleo de Formação gratuito que atende professores da Rede Particular e Pública de São Paulo. Os cursos são ministrados pelos próprios professores da Escola: uma formação dentro de outra formação.
Essa possibilidade é única para os meus professores. Quero que, ao virem para a escola para trabalhar, pensem que não é apenas mais um serviço, e sim um ofício, imbuído de estudo. Estudar é condição primeira para aqueles que querem seguir essa profissão. Estudo é ampliação de repertório, é a associação de idéias e vivências com o que acontece no dia-a-dia, é a possibilidade de multiplicar o saber. Formar é multiplicar saberes.
Saberes móveis, nômades, andarilhos. Saberes que, a cada olhar e palavra, modificam-se, assumem outras formas e composições. Pedem, clamam por associações e costuras. Precisam do outro para existir e continuar nesse ciclo de produção e de reprodução de conhecimento.
Percebo que o grande desafio durante a formação de professores é fazer com que entendam que, mais importante do que ter anos de prática, é estudar. Teoria é fundamental. Ler e escrever é essencial. Uma de nossas marcas dentro do Núcleo de Formação é a carga de textos que exigimos dos participantes. É preciso apresentar diversos autores e pensadores, teorias e relatos para que enriqueçam a sua experiência de serem professores. Experiência entendida como o Professor Jorge Larrosa nos ensina, intransferível, pessoal, imensurável.
Considero que a formação acadêmica seja insuficiente para aqueles que querem ser professores. Primeiro, porque essa profissão não pode cessar no momento em que recebemos nossos canudos. Segundo, porque a “formação autônoma”, a escolha pessoal do que se quer aprofundar, é o que alimenta a nossa experiência enquanto professores.
Gerir a própria formação deve ser mais um elemento de estudo dentro dos espaços de formação e na nossa profissão. É importante que nos sintamos sempre desestabilizados, desafiados, sempre com o compromisso com a incerteza.
Por termos medo de nos entregar ao estudo, de ler um livro de letras miúdas, por não querermos nos perder, sofrer instabilidades, desconcertos e incertezas, surgiram diversos profetas que fazem sucesso dentro desse ramo lucrativo que é a educação. Prometem o certo, o seguro, aquilo que tem futuro.
Formação de qualidade tem de ser aquela que nos tira do eixo, mexe com conceitos antigos, faz com que nos desapeguemos de conhecimentos, provoque mais esquecimentos, fale o que ainda não sabemos e, principalmente, abra a possibilidade do devir.
Dentro da Escola, quem deve se responsabilizar pela formação de professores são os diretores e coordenadores. Professores precisam de orientação, precisam de formação, como os seus estudantes. São muitas funções e responsabilidades que lhes competem: estudantes, conteúdos, famílias, parceiros de trabalho, sem falar em planejamento, avaliação, registros e reuniões. Ações que exigem um pensar mais vagaroso, um olhar compartilhado e companheiro.
A Escola é o espaço para que isso aconteça, escola é espaço de formações!
Marcelo Cunha Bueno